Declaração do Pastor Elizeu Rodrigues sobre sentimentos de Deus ignora doutrina histórica da impassibilidade, diz teólogo

Uma declaração do pastor Elizeu Rodrigues, publicada em vídeo no YouTube com o título “Deus é pessoal e tem sentimento”, reacendeu o debate sobre a doutrina da impassibilidade divina. No conteúdo, Rodrigues afirma que Deus possui sentimentos e pode até sofrer mais que os seres humanos. Segundo teólogos, a afirmação é teologicamente equivocada e desconsidera uma das doutrinas mais antigas da teologia cristã.

A principal crítica recai sobre a literalidade com que o pastor interpreta textos bíblicos que atribuem emoções a Deus. Em um trecho do vídeo, ele declara: “Mas Ele é apresentado como alguém que ri, se enfurece, se alegra, sofre, talvez ainda mais que os seres humanos.” Para estudiosos, a leitura desconsidera o caráter metafórico dessas passagens.

Segundo o teólogo Adalberto Menezes, a pessoalidade de Deus — ou seja, o fato de ser um ser relacional e consciente — é bíblica e amplamente aceita na teologia cristã. Porém, usar esse conceito para negar a impassibilidade representa um erro doutrinário. “Deus é impassível. Ele não sente dor, tristeza ou alegria da forma humana. Nada pode afetá-lo ou fazê-lo sofrer. Ele é imutável e perfeito”, afirma.

Linguagem figurada

A tradição cristã interpreta como figuras de linguagem as passagens que atribuem ações ou sentimentos humanos a Deus. São os chamados antropomorfismos (formas humanas), antropopatismos (sentimentos humanos) e antropoieses (ações humanas), termos ausentes no vídeo do pastor.

Norman Geisler, em sua Teologia Sistemática, observa que tais descrições não são literais. “Deus sente no sentido de percepção, mas não no de emoção. Ele tem sensibilidade, mas não sentimentalidade”, escreve o teólogo. O risco, segundo ele, está em considerar essas metáforas como verdades literais, o que pode conduzir a erros doutrinários graves.

Champlin, em comentário sobre Gênesis 6.6, reforça: “Sentimentos e emoções humanas são atribuídos a Deus, mas devemos entender essa linguagem de modo figurado.”

Impassibilidade: fundamento histórico e bíblico

A doutrina da impassibilidade sustenta que Deus não é sujeito a sofrimento ou variação emocional. Está amparada por textos que afirmam sua imutabilidade (Nm 23.19; 1 Sm 15.29) e sua autossuficiência (Sl 24.1; Rm 11.35-36). Se Deus pudesse sentir dor ou tristeza como os humanos, estaria vulnerável a mudanças — algo incompatível com sua perfeição.

A crença foi defendida por pais da Igreja como Agostinho, Tertuliano, Orígenes e por reformadores como Lutero, Calvino e Turretin. A afirmação de que Deus sofre mais que os homens, como propõe Elizeu Rodrigues, não encontra respaldo na teologia clássica.

Consequências doutrinárias

Para Adalberto Menezes, o perigo está em humanizar Deus. “Quando afirmamos que Ele possui sentimentos humanos, afetamos a doutrina da imutabilidade. Deus não muda. Se Ele muda, já não é o mesmo ontem, hoje e sempre. A Bíblia não sustenta essa ideia”, argumenta.

A ausência de distinção entre linguagem metafórica e literal pode confundir os fiéis. “É legítimo dizer que Deus se ira ou se entristece, desde que se compreenda o caráter figurado dessas expressões. Tomá-las ao pé da letra é erro teológico grave”, conclui Menezes.

https://www.instagram.com/reel/DJPTroFRx03

[1] [3] [4] GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. RJ: CPAD, 2010, Vol 1, p. 568, 646-651 653.
[2] CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento Interpretado: Gênesis. HAGNOS, 2018, p. 76.

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