Polícia invade culto, detém líderes cristãos e interroga dezenas de fiéis na China

Uma operação policial realizada no sudoeste da China voltou a chamar atenção para a situação da liberdade religiosa no país. Segundo denúncia da igreja Early Rain Covenant, uma das mais conhecidas congregações cristãs não registradas junto ao governo chinês, agentes armados interromperam um culto, detiveram líderes da igreja e levaram dezenas de fiéis para interrogatório.

De acordo com a congregação, a ação ocorreu na cidade de Jiangyou durante uma celebração realizada no último domingo. Policiais invadiram o local por volta das 11h da manhã e interromperam a reunião religiosa. A igreja faz parte das chamadas “igrejas domésticas”, grupos cristãos que atuam fora das instituições oficialmente reconhecidas pelo Estado chinês.

Líderes permanecem detidos

A Early Rain Covenant informou que os líderes Yan Hong e Wu Wuqing foram detidos durante a operação e permaneceram sob custódia das autoridades. Até a divulgação das informações pela igreja, os motivos das detenções não haviam sido oficialmente esclarecidos.

Imagens divulgadas pela congregação mostram fiéis reunidos em um salão de hotel cercados por agentes de segurança, incluindo integrantes de unidades especiais da polícia. Membros da igreja estimam que cerca de 50 policiais participaram da operação.

Crianças e idosos também foram abordados

Segundo relatos da igreja, mais de 30 participantes do culto foram conduzidos à força em veículos policiais até um centro de detenção, onde passaram por interrogatórios. Enquanto isso, crianças e idosos que permaneceram no local foram submetidos a procedimentos de identificação pelas autoridades.

A congregação afirma que, mesmo durante a detenção, os cristãos continuaram cantando hinos e realizando orações. A maioria dos participantes foi liberada ainda no mesmo dia, mas os dois líderes continuavam detidos.

A igreja também denunciou que agentes tentaram obter assinaturas dos participantes em documentos cujo conteúdo não teria sido explicado. Os fiéis, segundo o relato, recusaram-se a assinar.

Histórico de perseguição

Fundada em 2008 na cidade de Chengdu, a Early Rain Covenant tornou-se uma das mais conhecidas igrejas domésticas da China e vem enfrentando crescente pressão das autoridades ligadas ao Partido Comunista Chinês.

O episódio mais conhecido envolvendo a congregação ocorreu em 2018, quando o pastor fundador Wang Yi foi preso durante uma grande operação policial. Posteriormente, ele foi condenado a nove anos de prisão sob acusações de “incitação à subversão do poder do Estado” e “operações comerciais ilegais”.

Liberdade religiosa sob pressão

Embora o governo chinês reconheça oficialmente milhões de cristãos no país, as autoridades incentivam os fiéis a frequentarem apenas igrejas autorizadas e supervisionadas pelo Estado. Muitos cristãos, entretanto, optam por participar das chamadas igrejas domésticas, que funcionam independentemente do controle governamental.

Organizações internacionais de defesa da liberdade religiosa afirmam que a fiscalização e as detenções contra igrejas não registradas têm aumentado nos últimos anos. Bob Fu, fundador da organização ChinaAid, declarou que a operação demonstra que o Partido Comunista Chinês continua tratando reuniões cristãs pacíficas como uma ameaça ao controle estatal.

O caso se soma a outros episódios recentes envolvendo igrejas clandestinas no país. Em 2025, dezenas de líderes da Zion Church, uma das maiores congregações não registradas da China, também foram detidos em operações realizadas em diversas cidades chinesas.

Para muitos observadores internacionais, o episódio reforça as preocupações sobre as restrições à liberdade religiosa e os desafios enfrentados por cristãos que optam por exercer sua fé fora das estruturas controladas pelo governo chinês.

Com O Globo