Samuel Câmara: conheça o homem que desafiou a CGADB
Por Ricardo Costa
Aos 68 anos, o pastor de Belém mantém o mesmo discurso de renovação, mas quase nove anos após o racha, sua criação enfrenta a realidade do que muitos veem como uma estagnação, embora esse fato tenha sido contestado por um aliado, o ex-tesoureiro da CGADB.
Um homem, duas biografias: a do unificador e a do desafiante. Este é o retrato multifacetado do pastor Samuel Câmara, presidente da Assembleia de Deus em Belém e fundador da CADB. Para entender o presente da convenção que criou, é preciso antes percorrer a estrada de quase cinco décadas de ministério de seu líder mais fiel.
A trajetória ministerial de Samuel Câmara
Samuel Câmara é um filho da própria assembleia que ele um dia desafiou. Sua trajetória ministerial é marcada por pioneirismo e ascensão meteórica.
- Início precoce: Natural do Acre e criado em uma família assembleiana, Samuel pregou pela primeira vez aos 13 anos. Aos 14, já dirigia uma congregação em Manaus. Sua entrada no Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD) aos 16 anos o consolidou como o primeiro aluno oriundo do Amazonas e o mais jovem a ser recebido na instituição.
- Formação e ascensão: Além da Teologia, formou-se em Filosofia, Pedagogia e Direito, uma base plural que depois influenciaria sua liderança. Ordenado pastor aos 23 anos, assumiu a titularidade da igreja em Manaus e, em 1997, chegou ao topo ao se tornar o oitavo pastor presidente da Assembleia de Deus em Belém do Pará, a igreja-mãe da denominação no Brasil. Sob sua liderança, a igreja cresceu para 140 mil membros e 540 templos.
- Legado: Câmara é reconhecido como um empreendedor religioso. Construiu o complexo do Auditório Canaã e liderou a criação da rede de comunicação Rede Boas Novas, com estações de rádio, TV e canais de satélite.
Ruptura e inauguração da CADB
A frustração com o que considerava uma gestão sem transparência na CGADB foi o estopim para sua ruptura:
- Derrotas Judiciais: Câmara foi candidato à presidência da CGADB em 2007, 2009 e 2013, sendo derrotado em todas. A eleição de 2013 foi marcada por denúncias de irregularidades, resultando em uma multa milionária contra a CGADB, que, segundo a defesa de Câmara, impedia o acesso a todo o processo eleitoral. Em 2017, a CGADB anunciou a vitória de José Wellington Costa Junior, com Câmara afirmando ter sido impedido de acompanhar a apuração.
- O racha e a nova convenção: Em novembro de 2017, Samuel Câmara oficializou seu desligamento da CGADB, anunciando a criação de um novo movimento. Menos de um mês depois, no dia 2 de dezembro de 2017, foi fundada em Belém a Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), com Câmara sendo aclamado como seu primeiro presidente. A nova convenção nasceu forte, com a adesão de cerca de 10 mil pastores, prometendo ser uma alternativa viável à CGADB.
As promessas da CADB e o cenário atual
Quase Dez anos depois, a CADB não conseguiu nacionalizar sua influência e encontra-se praticamente estagnada, refém de sua base regional e de uma oposição que não conseguiu se consolidar como força de fato.
- Promessas Iniciais: Entre as promessas iniciais estavam material didático mais acessível para as Escolas Dominicais e a ordenação de mulheres ao ministério pastoral.
- Estagnação nacional: As promessas, no entanto, não se traduziram em crescimento nacional. O JM Notícia publicou que a CADB pode perder aliados históricos no Espírito Santo e no Maranhão, que estariam avaliando a filiação à CGADB. O ex-tesoureiro da CGADB, pastor Ivan Bastos, saiu em defesa da instituição, rebatendo a reportagem e afirmando que a CADB é uma convenção forte que já realizou “coisas grandes”.
- O tabuleiro político: A força de Samuel Câmara também se expressa na política. Irmão do deputado federal Silas Câmara, ex-presidente da Bancada Evangélica, Samuel apoiou publicamente o Governo Jair Bolsonaro. Apesar disso, a CADB ainda não conseguiu se consolidar como um ator político autônomo em relação à CGADB e outros blocos assembleianos.
Promessa
A CADB surgiu de uma genuína insatisfação com os rumos da CGADB, mas para muitos líderes assembleianos peca ao se apresentar como uma “alternativa” sem conseguir se firmar como uma força capaz de redefinir os rumos do movimento da denominação pentecostal. A promessa de renovação deu lugar a uma história de potencial não realizado. Samuel Câmara e a CADB seguem um movimento que já foi barulhento, mas hoje ecoa de forma mais silenciosa nos bastidores da maior denominação evangélica do país.
Samuel Câmara ainda acredita no projeto. Mas seus aliados começam a se perguntar: a CADB tem futuro ou é apenas uma memória de um racha que não vingou?