Proibição de mulheres no pastorado nos EUA pode influenciar igrejas batistas brasileiras?

A Convenção Batista do Sul (SBC) , maior denominação protestante dos Estados Unidos, aprovou em 10 de junho de 2026 o avanço de uma emenda constitucional que reafirma a proibição da ordenação de mulheres ao pastorado. Com o apoio de 74,6% dos mais de 8 mil delegados presentes na assembleia anual em Orlando, na Flórida, a medida ainda precisará ser ratificada em 2027 para entrar em vigor. A decisão, no entanto, já ecoa com força entre os batistas brasileiros — e reacende um debate que, aqui, está longe de ser pacífico.

O que a SBC decidiu

A emenda, apresentada pelo teólogo Albert Mohler, presidente do Seminário Teológico Batista do Sul, estabelece que igrejas cooperantes da SBC não podem “afirmar, nomear ou endossar” mulheres para o cargo ou função de pastora, presbítera ou supervisora, incluindo a pregação à congregação reunida. A proposta também prevê a exclusão de congregações que mantiverem mulheres em posições pastorais — como já ocorreu com a Saddleback Church, fundada por Rick Warren, e outras igrejas nos últimos anos.

A decisão, contudo, não é unânime. Críticos argumentam que a medida ultrapassa os limites da autonomia das igrejas locais, um princípio historicamente valorizado pela tradição batista. Organizações como a Baptist Women in Ministry se manifestaram contra: “As mulheres no ministério merecem afirmação, respeito e a oportunidade de seguir o chamado de Deus”.

O cenário brasileiro: restrições, avanços e contradições

No Brasil, a Convenção Batista Brasileira (CBB) — que congrega a maioria das igrejas batistas do país — transfere a decisão sobre a ordenação feminina para a Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB). Na prática, isso significa que a posição varia conforme a região e a interpretação de cada seção estadual da OPBB.

Historicamente, a OPBB foi restritiva. Em 2014, a OPBB-SP decidiu pela não filiação de pastoras, reafirmando decisão nacional de 2007. A primeira mulher a ser reconhecida como pastora pela OPBB foi Luciana Pessanha Lacerda dos Santos, em 2014. Ainda assim, a resistência institucional permanece.

A contradição, porém, é evidente. Como observa o pastor e doutor Kenner Terra, as mulheres já exercem funções pastorais na prática — evangelizam, discipulam, ensinam, coordenam ministérios e aconselham famílias. O que lhes é negado, muitas vezes, é apenas o reconhecimento institucional: “aceita-se o trabalho, mas recusa-se o título; acolhe-se a função, mas rejeita-se a autoridade”.

Dados do IBGE mostram que as evangélicas são 55,4% do universo evangélico brasileiro, o que equivale a cerca de 26,2 milhões de mulheres. Apesar disso, muitas das maiores denominações do país, como a CGADB, a Igreja Presbiteriana do Brasil e os segmentos batistas conservadores, continuam sem ordenar mulheres ao pastorado.

O que esperar

A decisão da SBC, embora ainda precise ser ratificada em 2027, já funciona como um termômetro para o movimento batista global. No Brasil, o tema tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos — especialmente com o crescimento do protagonismo feminino nas igrejas e a pressão por maior representatividade.

A pergunta que fica, como bem colocou Rick Warren ao questionar a exclusão da Saddleback Church, é: “Por que essa questão deveria cancelar nossa irmandade?” . Para os batistas brasileiros, a resposta ainda está em construção.