Marketcap das stablecoins em reais atinge R$ 135 milhões e acirra disputa por liderança no Brasil
O mercado de moedas estáveis atreladas ao real brasileiro (BRL) deixou de ser prova de conceito e entrou na fase de consolidação. A Iporanga Ventures conduziu um estudo com o apoio da Stark Bank, da Solana Foundation e da Conduit e apontou que o estoque em circulação chegou a R$ 135 milhões.
Estão distribuídos entre cinco emissores e presentes em seis blockchains. O levantamento também registra mais de 71.000 detentores e indica que cREAL lidera a oferta, com BRL1 sendo relatada como a segunda maior.
Como chegamos a R$ 135 milhões e por que isso importa
O salto das BRL-stablecoins acontece em paralelo à transformação dos pagamentos digitais no país. Em 2024, o Pix movimentou R$ 26,455 trilhões em 63,51 bilhões de transações, tornando-se o trilho doméstico que facilita on-ramp e off-ramp entre real bancário e real tokenizado.
Essa infraestrutura ajuda a explicar por que as stablecoins passaram a funcionar como camada de liquidação para casos de uso que vão de remessas a pagamentos corporativos. No cenário internacional, o volume liquidado por stablecoins já rivaliza redes de cartão.
Relatórios indicam 27,6 trilhões de dólares em volume de transferências em 2024, superando Visa e Mastercard combinadas, enquanto o FMI estimou 23 trilhões de dólares apenas em USDT e USDC no ano. Além disso, análises da Chainalysis mostram que stablecoins concentram a maior parte do volume cripto.
Para além do “cripto nativo”: Remessas, câmbio e futuros
O desenho de produto que mais avança é o de pagamentos e remessas. Do lado B2B, integrações que conectam BRL on-chain a contas internacionais vêm reduzindo prazos de liquidação e custos de tesouraria. Do lado do investidor, as BRL-stablecoins também funcionam como ponte neutra entre plataformas.
Inclusive quando o objetivo é arbitrar dólar digital e, em seguida, acessar mercados de derivativos. Para quem opera futuros de bitcoin, o caminho Pix, stablecoin BRL e dólar digital (USDC/USDT) tem servido para baratear entradas e saídas sem abrir mão de liquidez global.
Um uso que cresce com a profissionalização de mesas locais e a melhora de prova de reservas dos emissores. Essa cola entre trilhos locais e globais aparece em falas de players que estão empacotando a experiência.
Segundo Rafael Pereira, CEO da Gnosis Pay, as stablecoins já são uma plataforma mundial de pagamento. No Brasil, o Pix fecha a conta como rampa doméstica de alta penetração, baixíssimo atrito e liquidação quase instantânea.
Os tokens mapeados pelo estudo, cREAL, BRLA, BRZ, BRL1 e BBRL, revelam um mercado ainda fragmentado, embora com tração crescente. O cREAL, lançado na rede Celo, mantém a maior participação, o BRLA (Avenia) tem expandido presença e o BRZ (Transfero) segue como veterano multichain.
Já o BRL1 nasceu de consórcio que reúne Mercado Bitcoin, Bitso, Foxbit e Cainvest, e o BBRL, do Braza Bank, ancorou a emissão na XRP Ledger. Em comum, a promessa de paridade 1:1 com o real e provas de reserva em evolução.
Nesse mosaico, a liquidez ainda é o calcanhar de Aquiles. O estudo relata que a profundidade de mercado entre OTC, CEX e DeFi permanece reduzida e dispersa, o que encarece a execução em volumes maiores.
Mesmo assim, a combinação Pix + stablecoin vem ganhando tração no varejo e no P2P. Na fronteira cartão-cripto, há estreia no Brasil de parcerias com saldos em USDC convertidos para pagamento na rede Visa.
Quem emite hoje e o que cada projeto coloca à mesa
O BRZ, da Transfero, foi pioneiro ao tokenizar o real em 2019 e continua expandindo presença multichain, com discurso de integração ao Drex no médio prazo. A empresa, que passou por mudanças executivas em 2025, mantém foco em soluções de infraestrutura para empresas, com Pix indireto, orquestração e custódia institucional.
A BRLA trocou de marca para Avenia em 2025 e passou a comunicar-se como infraestrutura de liquidez e pagamentos, com token BRLA lastreado 1:1 e ênfase em compliance. Já a BRL1 nasceu com carimbo de grandes bolsas locais, posicionando-se para casos de uso corporativos e compatibilidade com Drex.
Por fim, a BBRL, do Braza Bank, banco autorizado pelo Banco Central, tem tese de distribuição focada em FX e liquidações cross-border, com whitepaper e materiais públicos descrevendo lastro 1:1 e auditoria recorrente.
O varejo vê um capítulo à parte com a CloudWalk e seu BRLC, usado como cashback e liquidação na rede InfinitePay, além de novos cartões cripto com conversão automática para real no ponto de venda. São experiências de circuito fechado que, na prática, testam redução de custos ao contornar processadoras tradicionais.
Além do estoque de R$ 135 milhões, o estudo cita volume semanal na casa de 131 milhões de dólares e cerca de R$ 5 bilhões movimentados em 2024 pelas moedas estáveis de real. Apesar do tamanho pequeno em estoque, o giro indica procura real por trilhos on-chain, sobretudo em remessas, pagamentos B2B e tesourarias que buscam conciliar Selic e finalidades operacionais.