Brasil é do Senhor? Pastor Ciro rebate modismo profético e diz que repetir frases não transforma nação
O pastor Ciro Sanches Zibordi publicou um artigo há algum tempo e que parece mais atual do que nunca. Sob o título “Podem todos profetizar ao mesmo tempo, e quando querem?” , o teólogo assembleiano e escritor fez um alerta contundente contra o que chamou de “mecanicismo e banalização do verbo ‘profetizar'” .
O texto denunciava uma prática que se tornara comum em muitos cultos: a transformação da profecia em “puro mecanicismo” , onde crentes são motivados a usar “o poder de suas palavras como se elas fossem mágicas”.
Função da profecia
Zibordi inicia o texto com uma definição bíblica: a verdadeira profecia ocorre quando o Espírito Santo usa seus servos para edificar, exortar e consolar a igreja (1 Coríntios 14.3). Ele fala como e quando quer (1 Coríntios 12.11), e não no momento em que alguém resolve proferir palavras de ordem.
O pastor lembra que, num culto, nem todos são profetas (1 Coríntios 12.29) e que devem falar apenas dois ou três, enquanto os demais julgam (1 Coríntios 14.29). Ele também destaca que a profecia pode ter três origens: divina, humana ou demoníaca (1 João 4.1; Deuteronômio 18.21-22; 1 Timóteo 4.1).
“Mas o que temos visto acontecer hoje em muitos cultos é puro mecanicismo e banalização do verbo ‘profetizar’. Os crentes têm sido motivados a usar o poder de suas palavras, como se elas fossem mágicas. Acreditam que qualquer declaração de fé é uma profecia para abençoar pessoas, famílias, empresas e até times de futebol!”
Quantos já não “abençoaram” o Brasil, profetizando por conta própria que esse país é do Senhor Jesus?! (Ah, se as coisas fossem tão fáceis como esses “profetas” pensam que são!) Apesar disso, a nossa nação continua cheia de violência, imoralidade, corrupção… O que pode mudar o mundo é a evangelização e a intercessão (Mc 16.15-18 e 1Tm 2.1-3). Mas, em vez de pregar o evangelho, muitos já foram convencidos de que basta profetizar bênçãos sobre a nação…
“Se alguns estivessem com a razão…”
O pastor faz uma provocação direta:
“Se algumas celebridades evangélicas estivessem com a razão, nenhum crente teria problema. Como num passe de mágica, todos profetizariam bênçãos uns aos outros, a qualquer hora, e Deus teria de sair cumprindo cada predição, inclusive as mais absurdas, como aquela de que a seleção brasileira seria…”
A frase, propositalmente interrompida, deixa no ar a crítica ao uso da profecia para fins fúteis ou nacionalistas — uma prática que, segundo Zibordi, reduz o dom espiritual a um instrumento de autossatisfação.
A resposta a uma leitora
Em um dos comentários ao artigo, uma leitora perguntou ao pastor se era errado dizer, ao final dos cultos: “Brasil, nós te abençoamos em nome de Jesus.”
A resposta de Zibordi foi esclarecedora:
“O que eu questiono é o fato de hoje muitos acharem que são ‘a boca de Deus’ na Terra. Pensam que dizendo repetidas vezes que o Brasil é do Senhor Jesus ele será. Que engano! A igreja tem de fazer a sua parte: evangelizar, influenciar pessoas por meio de uma vida exemplar, santa, além de interceder pela nação. O que vemos hoje? Líderes evangélicos metidos em uma série de irregularidades ‘profetizando’ que o Brasil é do Senhor Jesus! Ora, isso não é o evangelho de Cristo!”
O artigo gerou dezenas de comentários na época, com leitores agradecendo pelo alerta e compartilhando experiências semelhantes. Um leitor anônimo escreveu:
“Hoje posso dizer que a minha denominação é a Bíblia. Aos profetas que profetizam sem o Senhor ter mandado, cuidado, porque Deus irá calar a boca de todos!”
Outro leitor complementou:
“Estes ‘atos proféticos’ dos triunfalistas (que deveriam ser chamados de ATOS PATÉTICOS) têm origem na carne. Desde Jeremias, Deus já repreende severamente os profetas que profetizam os quereres de seu coração, e não as palavras proferidas pela boca do Senhor.”
Passados alguns anos, o cenário descrito por Zibordi parece ter se intensificado. Com a proliferação das redes sociais, a “profecia” tornou-se um gênero popular entre influenciadores gospel, que anunciam bênçãos, curas e vitórias como se tivessem autorização divina para tal — muitas vezes sem qualquer compromisso com a sã doutrina ou com a edificação da igreja.
Ciro Sanches Zibordi é pastor, membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil e autor de best-sellers da CPAD, como a série “Erros que os Pregadores Devem Evitar” e “Procuram-se Pregadores como Paulo” .