Batistas no mundo: como uma denominação perseguida se tornou uma das maiores comunidades evangélicas globais
A Igreja Batista é uma das mais importantes denominações cristãs do mundo, com presença em cerca de 200 países e aproximadamente 40 milhões de membros . Sua história, marcada por perseguições, lutas pela liberdade religiosa e intenso trabalho missionário, remonta ao início do século XVII, na Inglaterra.
Origens na Inglaterra e Holanda
Os batistas surgiram em meio ao contexto de reforma religiosa intensa que marcou a Europa no século XVI. O movimento está ligado aos dissidentes ingleses que se opunham à Igreja Anglicana — a igreja oficial da Inglaterra — e buscavam uma fé baseada exclusivamente nas Escrituras.
Um marco fundamental ocorreu em 1609, quando um grupo de refugiados ingleses, liderados por John Smyth (pastor) e Thomas Helwys (advogado), organizou uma igreja em Amsterdã, na Holanda, onde haviam buscado liberdade religiosa. Smyth discordava da política e de alguns pontos da doutrina da Igreja Anglicana e, após uma aproximação com os menonitas e o exame das Escrituras, creu na necessidade do batismo por imersão e mediante a profissão de fé.
“John Smyth batizou-se por imersão e em seguida batizou os demais fundadores da Igreja, constituindo-se assim a primeira igreja organizada, tendo como espelho as doutrinas do Novo Testamento, inclusive o batismo por imersão e mediante a profissão de fé em Jesus Cristo.”
Retorno à Inglaterra e perseguição
Após a morte de John Smyth, Thomas Helwys e seus seguidores decidiram retornar à Inglaterra. Em 1612, organizaram a Igreja Batista Spitalfields, nos arredores de Londres — considerada a primeira igreja batista em solo inglês.
Helwys, que era advogado e estudioso da Bíblia, escreveu um livro intitulado “Uma Breve Declaração Sobre o Mistério da Iniquidade” , no qual defendeu um dos princípios mais caros aos batistas: a liberdade religiosa. Ele afirmou que a consciência do homem é algo entre Deus e ele, e que o rei não tem que responder por ela.
Por causa de suas convicções, Helwys foi preso e morreu na prisão em 1615.
“Naqueles tempos, havia perseguição aos batistas e a outros dissidentes ingleses, por não concordarem com certas práticas e doutrinas da igreja oficial, a anglicana.”
A expansão para a América
Devido à perseguição, muitos batistas emigraram para as colônias da América do Norte. Em solo americano, dois homens são considerados os fundadores das igrejas batistas:
- Roger Williams organizou a Primeira Igreja Batista de Providence em 1639, na colônia que fundou com o nome de Rhode Island.
- John Clark organizou a Igreja Batista de Newport, também em Rhode Island, em 1648.
Os batistas se espalharam pelas diversas colônias e foram influentes na formação da Constituição Americana de 1788, especialmente na defesa da liberdade religiosa. Atualmente, a Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos conta com cerca de 16 milhões de membros, sendo a maior comunidade evangélica daquele país.
A chegada ao Brasil
No Brasil, os primeiros missionários chegaram há cerca de 150 anos. O marco inicial do trabalho batista no país foi a Igreja Batista de Santa Bárbara, fundada em 11 de setembro de 1871, com cerca de trinta membros, integrantes da Colônia de Santa Bárbara, no interior de São Paulo.
O missionário pioneiro William Buck Bagby registrou:
“Foi no Estado de São Paulo que se organizou a Primeira Igreja Baptista da América do Sul. Foi no anno de 1870 que esta igreja foi organizada na Colonia Norte-Americana de Santa Barbara… Foi em Santa Barbara também que se baptizou o primeiro baptista brasileiro, o ex-padre Antonio Teixeira de Albuquerque.”
A partir de Santa Bárbara, os missionários se espalharam. Em 1882, foi organizada a Primeira Igreja Batista da Bahia , em Salvador . Em 1884, a Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro . Em 1885, a Primeira Igreja Batista de Maceió . E em 1886, a Primeira Igreja Batista do Recife .
“A IB Santa Bárbara foi o ponto de partida de cinco cristãos Batistas que fundaram a IB Bahia – o casal Bagby, o casal Taylor e Antonio Teixeira.”
A Convenção Batista Brasileira
Nos primeiros 25 anos de trabalho, Bagby e Taylor, auxiliados por outros missionários e por um número crescente de brasileiros — evangelistas e pastores — já haviam organizado 83 igrejas com aproximadamente 4.200 membros.
A ideia de organizar uma convenção nacional partiu de Salomão Ginsburg . Em 22 de junho de 1907, na cidade de Salvador, foi realizada a primeira assembleia da Convenção Batista Brasileira (CBB) , composta por 43 mensageiros enviados por igrejas e organizações.
A primeira diretoria eleita foi:
- Presidente: Francisco Fulgêncio Soren
- 1º Vice-presidente: Joaquim Fernandes Lessa
- 2º Vice-presidente: João Borges da Rocha
- Tesoureiro: Zacharias Taylor
A motivação básica da criação da Convenção foram as Missões — falava-se na evangelização de Portugal, Chile e África. Foram criadas diversas juntas: Missões Nacionais, Missões Estrangeiras (hoje Missões Mundiais), Casa Publicadora Batista, Escola Bíblica Dominical, União de Mocidade Batista, Educação e Seminário.
Educação: uma marca dos batistas
A educação é uma marca visível do povo batista. A paixão pelo estudo da Bíblia desenvolveu o interesse pela educação religiosa, cultivada nas igrejas através da EBD e de organizações de treinamento.
Com a educação religiosa veio a educação teológica. O Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil foi organizado em Recife em 1902 por Salomão Ginsburg. O Seminário Teológico Batista do Sul foi fundado no Rio de Janeiro em 1908 pelo missionário John Watson Shepard.
A educação secular também foi incentivada. Colégios batistas foram fundados em diversas cidades, incluindo Salvador, São Paulo, Recife, Vitória, Rio de Janeiro, Alagoas, Campos (RJ) e Belo Horizonte, entre outros. A contribuição dos batistas na área educacional é notável — cerca de dois milhões de brasileiros já passaram pelas escolas batistas.
Doutrinas e princípios
Os batistas são conhecidos por suas doutrinas e princípios, que incluem:
- Salvação pela fé somente (Sola Fide)
- Bíblia como regra de fé e prática (Sola Scriptura)
- Separação entre Igreja e Estado
- Governo congregacional — autonomia da igreja local, sem hierarquia entre pastores de uma igreja e outra
- Batismo por imersão , realizado apenas em idade consciente
- Ceia do Senhor como ordenança de Jesus Cristo
“Não há hierarquia ou subordinação entre pastores de uma igreja e outra.”
Com informações Memória dos Batistas