Teógolos expõem “calcanhar de aquiles do cessacionismo” e desmontam doutrina que nega dons espirituais

Gutierres Siqueira e pastor José Gonçalves. Foto: Reprodução

O debate sobre a continuidade dos dons espirituais ganhou novos capítulos nas redes sociais e no meio teológico. O pastor e comentarista da CPAD, José Gonçalves, publicou recentemente uma análise intitulada “O calcanhar de Aquiles do cessacionismo” , na qual aponta as fragilidades da posição que defende o fim das manifestações carismáticas . Dias atrás, o teólogo Gutierres Siqueira, em vídeo publicado pelo JM Notícia, também rebateu o que considera o “melhor argumento” dos cessacionistas .

O cessacionismo é a doutrina que defende que os dons extraordinários — como profecia, línguas e curas — cessaram com a morte do último apóstolo ou com o fechamento do cânon bíblico. A posição é comum em tradições reformadas e presbiterianas.

As três fragilidades do cessacionismo segundo José Gonçalves

Em sua análise, o pastor José Gonçalves listou três pontos que, segundo ele, são insustentáveis na posição cessacionista:

1. Ausência de um texto bíblico explícito — Não há um versículo que afirme de maneira inequívoca que os dons extraordinários cessariam com a morte dos apóstolos ou com o fechamento do cânon.

2. Explicação insuficiente da continuidade histórica — Embora os dons não tenham sido igualmente frequentes em todas as épocas, há numerosos relatos ao longo da história da Igreja de manifestações carismáticas, o que exige uma explicação histórica mais complexa do que simplesmente afirmar que cessaram.

3. Interpretação contestada de 1 Coríntios 13.8–10 — O principal texto usado para defender o cessacionismo — “quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado” — é objeto de intenso debate exegético. Muitos estudiosos entendem que “o que é perfeito” se refere à consumação escatológica e não ao fechamento do cânon ou ao fim da era apostólica.

“Não há um texto que afirme de maneira inequívoca que os dons extraordinários cessariam com a morte dos apóstolos ou com o fechamento do cânon” — afirma José Gonçalves.

Gutierres Siqueira: “O argumento não se sustenta à luz do Novo Testamento”

O teólogo pentecostal Gutierres Siqueira, em vídeo publicado publicado em suas redes sociais e ampliado por matéria do JM Notícia, foi além. Ele dialogou com o artigo de Robert Rothwell, editor associado da revista Tabletalk e escritor sênior do Ministério Ligonier, que defendia o cessacionismo com base em Hebreus 2.3–4.

Rothwell argumentava que os dons espirituais tiveram um propósito único: testificar e validar a mensagem apostólica. Uma vez que o colégio apostólico não existe mais, esses dons não seriam mais necessários.

Gutierres rebateu:

“O texto não está dizendo que é o único propósito. É um dos propósitos.”

Ele então recorreu a 1 Coríntios 12 a 14 e a Efésios 4, onde Paulo enfatiza que os dons espirituais têm como finalidade a edificação da igreja — o desenvolvimento da maturidade do corpo de Cristo.

“A igreja ainda existe, não completou ainda a sua missão. Essa igreja também precisa de um processo de amadurecimento constante. E os dons espirituais são dados para o amadurecimento.”

Dons não se restringiram aos apóstolos

Gutierres também apontou um problema lógico no argumento cessacionista: se os dons serviram apenas para testificar a mensagem apostólica, como explicar as inúmeras passagens bíblicas que mostram atividades carismáticas realizadas por pessoas que não eram apóstolos?

Ele listou exemplos do livro de Atos:

  • Estevão (Atos 6.8) – diácono, não apóstolo, fazia prodígios e grandes sinais
  • Felipe (Atos 8.5–13) – evangelista, realizava sinais, curas e expulsão de demônios
  • Ananias (Atos 9.10–19) – ministrou cura e enchimento do Espírito a Paulo
  • Profetas (Atos 11.27–28, 13.1–3, 15.32) – Ágabo, Judas, Silas e outros não apóstolos

“Se os dons espirituais serviram apenas para testificar a mensagem apostólica, você vai dizer que essa atividade ficou restrita aos apóstolos. Mas Atos está cheio de exemplos de que não ficou restrito.”

Gutierres destacou ainda o caso da igreja de Corinto: em 1 Coríntios 1.7, Paulo diz que àquela igreja “não faltava nenhum dom”. Havia profecia, cura, línguas, visões e maravilhas. No entanto, não havia nenhum apóstolo em Corinto.

“E aquela igreja era uma igreja altamente carismática” — observou o teólogo, concluindo que a atividade dos dons não dependia da presença apostólica.

A união dos argumentos

A publicação do pastor José Gonçalves e a análise de Gutierres Siqueira se complementam. Enquanto José Gonçalves aponta a falta de base bíblica explícita e os problemas exegéticos e históricos do cessacionismo, Gutierres demonstra que o argumento central da doutrina não se sustenta à luz do Novo Testamento.

“O grande problema desse argumento é que ele não se sustenta à luz do Novo Testamento. Havia abundantes atividades carismáticas — profecias, línguas, curas — em igrejas que não tinham presença apostólica” — resume Gutierres Siqueira.

Esperando a resposta dos cessacionistas.

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