O teólogo pentecostal Gutierres Siqueira publicou em seu canal no YouTube, nesta quinta-feira (11 de junho de 2026) , um vídeo no qual analisa e rebate o que ele considera o “melhor argumento” da teologia cessacionista — a doutrina de que os dons espirituais como profecia, línguas e milagres cessaram com a morte do último apóstolo.
No vídeo, Gutierres dialoga com um texto de Robert Rothwell, editor associado da revista Tabletalk e escritor sênior do Ministério Ligonier, publicado originalmente em agosto de 2022 sob o título “O cessacionismo”.
O argumento central do cessacionismo
No artigo da Ligonier, Rothwell apresenta a essência da posição cessacionista:
“Quando Deus dá uma nova revelação especial, Ele emprega métodos extraordinários, tais como profecia e línguas, a fim de entregar a revelação e sinais extraordinários (como milagres) para confirmar aqueles que devemos receber (profetas e apóstolos) como portadores inspirados da revelação.”
Com base em Hebreus 2.3-4, que diz que Deus testemunhou a mensagem apostólica “por meio de sinais, prodígios, vários milagres e distribuição do Espírito Santo”, os cessacionistas argumentam que os dons espirituais tiveram um propósito único: testificar e validar a mensagem dos apóstolos. Uma vez que o colégio apostólico não existe mais, esses dons não seriam mais necessários.
A resposta de Gutierres
O teólogo pentecostal começa reconhecendo que, de fato, os dons serviram para testificar a mensagem apostólica. No entanto, ele aponta que o texto bíblico não diz que esse era o único propósito.
“O texto não tá dizendo que é o único propósito. É um dos propósitos”, afirma Gutierres.
Ele então recorre a 1 Coríntios 12 a 14 e a Efésios 4, onde o apóstolo Paulo enfatiza que os dons espirituais têm como finalidade a edificação da igreja — o desenvolvimento da maturidade do corpo de Cristo.
“A igreja ainda existe, não completou ainda a sua missão. Essa igreja também precisa de um processo de amadurecimento constante. E os dons espirituais são dados para o amadurecimento”, argumenta.
Dons não se restringiram aos apóstolos
Gutierres também aponta um problema lógico no argumento cessacionista. Se os dons serviram apenas para testificar a mensagem apostólica e, portanto, se restringiram aos apóstolos, como explicar as inúmeras passagens bíblicas que mostram atividades carismáticas realizadas por pessoas que não eram apóstolos?
O teólogo lista vários exemplos do livro de Atos:
- Estevão (Atos 6.8) – diácono, não apóstolo, fazia prodígios e grandes sinais
- Felipe (Atos 8.5-13) – evangelista, realizava sinais, curas e expulsão de demônios
- Ananias (Atos 9.10-19) – ministrou cura e enchimento do Espírito a Paulo
- Profetas (Atos 11.27-28, 13.1-3, 15.32) – Ágabo, Judas, Silas e outros profetas não apóstolos
“Se os dons espirituais serviram apenas para testificar a mensagem apostólica, você vai dizer que essa atividade ficou restrita aos apóstolos. Mas Atos está cheio de exemplos de que não ficou restrito”, afirma.
A igreja de Corinto: um caso emblemático
Gutierres destaca o caso da igreja de Corinto. Em 1 Coríntios 1.7, Paulo diz que àquela igreja “não faltava nenhum dom”. Havia profecia, cura, línguas, visões e maravilhas. No entanto, não havia nenhum apóstolo em Corinto.
“E aquela igreja era uma igreja altamente carismática”, observa o teólogo, concluindo que a atividade dos dons não dependia da presença apostólica.
Crítica ao argumento do “silêncio profético”
O teólogo também rebate outro ponto do artigo cessacionista: a alegação de que o povo de Deus passou séculos sem profetas, como entre Abraão e Moisés e entre Malaquias e João Batista.
Gutierres aponta que Abraão é chamado de profeta (Gênesis 20), e que no período entre Abraão e Moisés houve figuras como Bezalel e Oliabe (Êxodo 31), cheios do Espírito Santo para a construção do tabernáculo, e os 70 anciãos (Números 11) que profetizaram.
Sobre os chamados “400 anos de silêncio” entre Malaquias e o Novo Testamento, ele afirma: “É falta de conhecimento da literatura do segundo templo. Hoje há diversos pesquisadores mostrando como havia abundante atividade profética durante esse período.”
Ele conclui que o argumento cessacionista é, em essência, um argumento do silêncio: “Não tô vendo, logo não tem.”
“Não se sustenta”
Gutierres Siqueira resume sua posição:
“O grande problema desse argumento é que ele não se sustenta à luz do Novo Testamento. Havia abundantes atividades carismáticas — profecias, línguas, curas — em igrejas que não tinham presença apostólica.”
Assista: