“Modismos e busca pelo poder político são ameaças à fé pentecostal”, alerta de 2024 reascende em meio à pré-campanha eleitoral de 2026

Em fevereiro de 2024, o teólogo pentecostal Gutierres Fernandes Siqueira, membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus — Ministério do Belém, em São Paulo (SP), provocou uma reflexão em seus seguidores ao listar os três maiores desafios enfrentados pelo pentecostalismo no Brasil: modismos, busca pelo poder político e o fenômeno do pós-pentecostalismo.

Dois anos depois, em meio à pré-campanha eleitoral de 2026, suas palavras ganham um novo e inquietante significado.

Os três desafios do pentecostalismo contemporâneo

1. Os modismos

Gutierres apontou que, nos últimos 40 anos, surgiram muitos modismos dentro do pentecostalismo, incluindo doutrinas e práticas que descaracterizam a essência da fé pentecostal devido ao excesso de subjetividade e descuido no estudo das Escrituras.

Entre eles, ele citou:

  • Teologia da Prosperidade
  • Confissão Positiva
  • Teologia da Batalha Espiritual supersticiosa
  • Teologia do Domínio
  • Carismania (uso exagerado dos dons)

“Essas práticas e ideias descaracterizam o pentecostalismo devido ao excesso de subjetividade, superstição e descuido no estudo das Sagradas Escrituras” — afirmou o teólogo.

2. A busca pelo poder político

O segundo ponto de Gutierres é, talvez, o mais atual. Ele criticou veementemente a busca pelo poder político, tanto no âmbito partidário quanto eclesiástico, afirmando que essa busca tem levado muitos ao esquecimento dos verdadeiros valores espirituais em prol de interesses pessoais e corporativos.

“A busca do poder — não o poder de Deus, mas o poder dos homens — refere-se à política em sua forma mais baixa e caricata, caracterizada pela politicagem pura e simples, pela busca de privilégios e espaços de conforto. Esses são os profetas da corte, que sempre proclamam o que os reis corruptos querem ouvir, utilizando-se do carisma sem a preocupação com o caráter.”

Ele também alertou para a política eclesiástica:

“Disputas dentro do Reino de Deus para saber quem é o maior, o mais importante, o mais influente… A fome pelo poder político, seja partidário ou eclesiástico, já fez muitos morrerem espiritualmente — enquanto acreditam nos bajuladores que os chamam de ‘homens de Deus’. Vivem da pompa do passado — mas o passado simplesmente passou.”

3. O pós-pentecostalismo

O terceiro desafio apontado por Gutierres é o que ele chama de pós-pentecostalismo — uma ameaça mais sutil e sofisticada.

“Trata-se do pentecostalismo sem Pentecostes, reduzido a uma mera tradição, sem o desejo pelos dons e pelo Batismo no Espírito Santo, e que não reconhece uma teologia própria.”

Ele descreve o pós-pentecostal como alguém que, assumindo uma postura de inferioridade, acredita que o pentecostalismo não tem nada a ensinar, apenas a aprender — o que, segundo ele, extingue o Espírito “não como um crítico externo, mas a partir de dentro”.

O contexto de 2026: profetas da corte e disputas eclesiásticas

As palavras de Gutierres Siqueira, escritas antes mesmo do início da atual corrida eleitoral, ressoam com força no cenário político de 2026.

À medida que lideranças evangélicas anunciam apoios a candidatos, declaram pré-candidaturas e disputam espaços de influência, a crítica do teólogo aos “profetas da corte” — aqueles que proclamam o que os poderosos querem ouvir — parece descrever com precisão um fenômeno que se repete a cada ciclo eleitoral.

A “fome pelo poder político” que ele denunciou em 2024 se manifesta hoje em convenções que oficializam chapas, pastores que se lançam candidatos e igrejas que se tornam palanques eleitorais.

Da mesma forma, as disputas eclesiásticas — a luta para saber “quem é o maior, o mais importante, o mais influente” — continuam a dividir denominações e a desviar o foco da missão da igreja.

O alerta permanece

O teólogo concluiu sua reflexão com um chamado à volta às essências:

“O pentecostalismo não está voltado apenas para a capacitação espiritual dos dons, mas, acima de tudo, busca o revestimento de poder para sair às ruas e vielas deste mundo numa proclamação evangelística com autoridade, coragem sobrenatural e milagres.”

A mensagem, publicada há mais de dois anos, permanece como um alerta necessário para um momento em que a fé corre o risco de ser instrumentalizada por agendas políticas e interesses pessoais — e em que o Espírito Santo pode ser extinto “a partir de dentro”.

O JM Notícia reproduz a reflexão do teólogo Gutierres Siqueira como um convite à vigilância e à volta ao verdadeiro propósito do pentecostalismo.

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