ALERTA JURÍDICO ÀS IGREJAS E MINISTÉRIOS NAS ELEIÇÕES DE 2026

O PÚLPITO NÃO É PALANQUE

Por Dr. Sebastião Tertuliano Filho – OAB/TO 6074

Pastores, bispos, apóstolos e líderes cristãos,

As eleições de 2026 exigirão das igrejas um nível de prudência jurídica jamais visto em pleitos anteriores.

Não escrevo estas linhas como comentarista político.

Escrevo como advogado.

E exatamente por isso sinto a obrigação de alertar o Corpo de Cristo acerca de um risco que muitos ainda não perceberam.

O risco não está em a Igreja falar.

O risco está na forma como ela fala.

O risco não está na participação política.

O risco está na utilização da estrutura e da autoridade espiritual para favorecer candidaturas.

A Justiça Eleitoral está deixando cada vez mais claro que não tolerará a utilização de templos religiosos como extensão de campanhas eleitorais.

E muitos líderes somente descobrirão isso quando já estiverem respondendo a uma AIJE — Ação de Investigação Judicial Eleitoral.

A ILUSÃO QUE PODE CUSTAR UMA CASSAÇÃO

Há um equívoco perigoso se espalhando entre líderes religiosos.

Muitos acreditam que:

“Se o culto aconteceu dentro da igreja, então está protegido pela liberdade religiosa.”

Não está.

A liberdade religiosa é ampla.

Mas ela não é absoluta.

Da mesma forma que a imunidade tributária não autoriza uma igreja a praticar atos ilícitos, a liberdade religiosa também não autoriza a utilização da estrutura eclesiástica para desequilibrar a disputa eleitoral.

A Constituição protege o altar.

Mas não protege o uso eleitoral do altar.

Essa distinção precisa ser compreendida imediatamente.

O QUE A JUSTIÇA ELEITORAL PASSOU A ENXERGAR

O Tribunal Superior Eleitoral tem consolidado entendimento de que, embora não exista tecnicamente o chamado “abuso de poder religioso” como categoria autônoma, a utilização da estrutura religiosa pode caracterizar:

  • abuso de poder político;
  • abuso de poder econômico;
  • uso indevido dos meios de influência coletiva;
  • violação da igualdade entre candidatos;
  • captação ilícita de apoio eleitoral.

Em outras palavras:

O problema não é a religião.

O problema é a instrumentalização da religião.

O ERRO QUE PODE DESTRUIR UM MINISTÉRIO

Muitos líderes pensam que o perigo está apenas em pedir votos.

Não.

O problema começa muito antes.

Quando um candidato passa a ter privilégios que os demais não possuem.

Quando recebe espaço exclusivo.

Quando é apresentado à congregação como “o nosso candidato”.

Quando recebe o microfone.

Quando recebe homenagens.

Quando é aplaudido em ambiente de culto.

Quando é promovido diante da membresia.

Tudo isso pode ser interpretado como utilização da estrutura religiosa para promoção eleitoral.

E hoje absolutamente tudo é gravado.

Tudo é filmado.

Tudo é publicado.

Tudo se transforma em prova.

O vídeo que recebe aplausos na segunda-feira pode virar prova judicial na sexta-feira.

PASTORES ESTÃO CONFUNDINDO APOIO PESSOAL COM APOIO INSTITUCIONAL

Todo pastor é cidadão.

Todo pastor pode votar.

Todo pastor pode ter posicionamento político.

Todo pastor pode ter preferência partidária.

O que ele não pode fazer é utilizar a autoridade espiritual que recebeu para induzir eleitoralmente os membros da igreja.

Existe uma enorme diferença entre dizer:

“Eu, Sebastião Tertuliano, como cidadão, tenho minha posição política.”

E dizer:

“Esta igreja apoia determinado candidato.”

A primeira afirmação pertence à esfera individual.

A segunda pode gerar graves consequências eleitorais.

O ARTIGO 22 DA LC 64/90 DEVE PREOCUPAR TODAS AS LIDERANÇAS

Poucos líderes conhecem o verdadeiro alcance do artigo 22 da Lei Complementar 64/90.

Trata-se do principal instrumento utilizado para investigar abuso de poder nas eleições.

Quando uma AIJE é proposta, as consequências podem ser devastadoras:

✔️ cassação do registro;

✔️ cassação do diploma;

✔️ perda do mandato;

✔️ inelegibilidade por oito anos;

✔️ exposição pública do ministério;

✔️ convocação de líderes para depoimentos.

E o mais grave:

Muitas vezes a prova utilizada é produzida pela própria igreja através de suas transmissões ao vivo.

O QUE AS IGREJAS DEVEM EVITAR EM 2026

Permitam-me ser absolutamente objetivo.

Se você é pastor, evite:

❌ Pedir votos durante cultos.

❌ Apresentar candidatos como representantes oficiais da igreja.

❌ Entregar o púlpito para discursos eleitorais.

❌ Fazer campanhas veladas durante reuniões.

❌ Transformar congressos em eventos políticos.

❌ Utilizar grupos ministeriais para propaganda eleitoral.

❌ Publicar vídeos institucionais de apoio eleitoral em canais oficiais da igreja.

❌ Associar a bênção de Deus a determinada candidatura.

❌ Constranger membros a seguirem determinada orientação política.

Cada uma dessas práticas poderá ser utilizada como elemento probatório em futuras investigações.

O MAIOR PERIGO NÃO É JURÍDICO

É MORAL.

A Igreja existe para proclamar Cristo.

Quando o Evangelho passa a servir a projetos eleitorais, ocorre uma inversão de finalidade.

O Reino deixa de influenciar a política.

E passa a ser utilizado por ela.

Historicamente, sempre que isso aconteceu, a Igreja perdeu autoridade moral.

Por isso, o debate não é apenas jurídico.

É espiritual.

MINHA ORIENTAÇÃO COMO ADVOGADO

Minha orientação aos pastores do Tocantins e do Brasil é simples:

Ensinem princípios.

Formem consciência.

Defendam valores.

Promovam cidadania.

Orem pelas autoridades.

Estimulem a participação política responsável.

Mas não permitam que o altar seja transformado em palanque.

O púlpito não foi criado para eleger homens.

Foi criado para anunciar o Evangelho.

Nas eleições de 2026, a prudência não será uma opção.

Será uma necessidade.

E aqueles que compreenderem isso agora evitarão problemas que talvez não consigam corrigir depois.

Dr. Sebastião Tertuliano Filho
OAB/TO 6074
Advogado | Jurista | Teólogo | Presidente da Igreja Esperança Palmas TO

“A Igreja deve influenciar a sociedade através da verdade. Nunca através do abuso de sua autoridade espiritual.”