Neste artigo, contamos com a participação de Daniela Levy, uma das vozes mais respeitadas no Brasil quando o tema é a Inquisição.
Daniela Levy – Perfil e Trajetória
Daniela Levy é historiadora com atuação desde 2000, tendo desenvolvido sua formação acadêmica sob orientação da professora Anita Novinsky, com quem trabalhou até o falecimento da pesquisadora. É doutora em História Social pela Universidade de São Paulo e ocupa atualmente o cargo de Vice-Presidente do CRIAN – Centro de Referência sobre Inquisição Anita Novinsky/SP.
Formação e Pesquisa
- Mestre e doutora em História Social pela USP, com pesquisas voltadas para a Inquisição e seus impactos na sociedade ibérica e brasileira.
- Publicou seu mestrado sobre os judeus que saíram de Recife para Nova York, ( Ed Planeta/CEPE), obra amplamente consultada, especialmente pelo público do Nordeste.- De Recife a Manhattan: Judeus na formação de Nova York.
- Co-autora do livro Os judeus que construíram o Brasil (ed Planeta) fruto de um projeto de dez anos em parceria com Eneida Ribeiro e Lina Gorenstein.
- Organizadora do livro A luta inglória do Padre Antônio Vieira e autora de diversos capítulos e artigos sobre Inquisição, cristãos-novos e antissemitismo, publicados no Brasil e no exterior (EUA e Israel).
Atuação como Curadora e Palestrante
Daniela Levy tem se destacado como curadora de exposições sobre a Inquisição e a história judaica no Brasil. Entre seus trabalhos, estão:
- Exposições realizadas em parceria com a Sinagoga de Recife, o primeiro museu/sinagoga das Américas.
- Exposição sobre a Inquisição no Museu Judaico de São Paulo.
Como palestrante, dedica-se a discutir o caráter discriminatório da Inquisição e seus impactos, com foco em como a mentalidade ibérica (portuguesa e espanhola) foi transferida para o Brasil, moldando práticas de exclusão e preconceito.
Centro de Pesquisa
Atualmente, Daniela Levy está à frente da criação de um novo centro de pesquisa baseado na biblioteca da professora Anita Novinsky. O acervo reúne documentos coletados em arquivos da Europa, Estados Unidos e Israel, com o objetivo de tornar o centro acessível e atuante para pesquisadores interessados na história da Inquisição e da presença judaica.
Daniela Levy se consolidou como uma referência no estudo da Inquisição, dos cristãos-novos e do antissemitismo, contribuindo para a compreensão de como discursos de intolerância foram construídos e perpetuados ao longo dos séculos. Sua atuação combina pesquisa acadêmica, curadoria cultural e divulgação histórica, tornando-a uma voz essencial na reflexão sobre os legados da perseguição religiosa e da discriminação.

A Inquisição Espanhola
A Inquisição Espanhola foi muito mais do que um tribunal religioso. Criada no final do século XV, tornou-se um dos mais poderosos instrumentos de perseguição da história europeia. Embora oficialmente tivesse como missão proteger a fé católica, sua atuação esteve diretamente ligada ao projeto de unificação política da Espanha e ao fortalecimento do poder da monarquia.
O lema era claro: “um só território, uma só lei e uma só religião”.
Foi sob essa ideia que o Tribunal da Inquisição foi instituído em Castela, em 1º de novembro de 1478, e, poucos anos depois, estendido aos reinos de Aragão, Catalunha e Valência. À frente da nova instituição estava o dominicano Tomás de Torquemada, que entraria para a história como o primeiro Inquisidor-Geral.
A criação do Tribunal resultou de um acordo entre os Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, e o papa Xisto IV. Embora revestida de autoridade religiosa, a nova instituição também respondia a interesses políticos, econômicos e sociais. Em uma Europa marcada por disputas de poder e pelo crescimento do antijudaísmo, a religião tornou-se um instrumento para consolidar a autoridade do Estado.
Da convivência ao preconceito
Durante séculos, a Península Ibérica foi um dos poucos lugares da Europa onde judeus, cristãos e muçulmanos conviveram de forma relativamente harmoniosa. Entre os séculos VIII e XII, essa convivência favoreceu importantes avanços na medicina, na astronomia, na matemática, na filosofia e no comércio. O intercâmbio de conhecimentos entre as diferentes culturas transformou a região em um dos principais centros intelectuais do mundo medieval.
Enquanto isso, em boa parte da Europa cristã, consolidava-se uma imagem cada vez mais negativa dos judeus. Eles eram responsabilizados pela morte de Cristo, associados a forças demoníacas e acusados de crimes que jamais foram comprovados.
Uma das falsas acusações mais conhecidas era a dos chamados “crimes rituais”. Segundo essa narrativa, judeus sequestrariam crianças cristãs para utilizar seu sangue na preparação do pão ázimo consumido durante a Páscoa judaica. Hoje, a historiografia considera essas acusações completamente falsas, criadas para justificar perseguições e alimentar um antissemitismo que atravessaria os séculos.
Esse ambiente de intolerância foi decisivo para a construção das bases ideológicas da Inquisição Espanhola. Ao longo dos séculos XV e XVI, o discurso religioso serviria para legitimar a perseguição não apenas aos judeus, mas também aos cristãos-novos, suspeitos de manter vínculos secretos com a antiga religião.
A Reconquista e o fortalecimento do antijudaísmo
O avanço da Reconquista Cristã, que culminou na expulsão dos reinos muçulmanos da Península Ibérica, deu novo fôlego ao discurso antijudaico. Líderes religiosos e setores das elites políticas passaram a defender que judeus e outras minorias religiosas representavam uma ameaça à unidade do reino.
Um episódio ocorrido em 1454, na cidade de Valladolid, ilustra como esse clima de intolerância se consolidava. Judeus foram acusados de assassinar uma criança cristã em um suposto ritual religioso. Mais tarde, descobriu-se que os verdadeiros responsáveis eram cristãos interessados em roubar a bolsa de moedas da vítima. Mesmo assim, a inocência dos acusados não impediu que o caso fosse explorado como propaganda contra a comunidade judaica.
Ao mesmo tempo, disputas econômicas entre a burguesia cristã em ascensão e tradicionais famílias judaicas passaram a ser utilizadas como argumento político. Aos poucos, difundiu-se a ideia de que os judeus eram responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pelo reino.
Mas as razões para a criação da Inquisição iam além da religião.
Fernando de Aragão e Isabel de Castela precisavam consolidar a recém-unificada monarquia espanhola e garantir o apoio da Igreja e das elites urbanas. Em troca desse apoio, medidas cada vez mais restritivas contra os conversos passaram a integrar a política oficial da Coroa.
A situação financeira também pesava nessa decisão. Os cofres do reino estavam praticamente vazios, enquanto a monarquia precisava financiar a campanha militar para conquistar Granada, o último território muçulmano da Península Ibérica.
Nesse contexto, a Inquisição tornou-se também um instrumento de arrecadação. Os bens dos condenados eram confiscados e divididos entre a Coroa e o próprio Tribunal. Cada processo podia representar não apenas a eliminação de um suposto inimigo da fé, mas também uma nova fonte de recursos para o Estado.
A convergência entre interesses religiosos, políticos e econômicos transformou a Inquisição Espanhola em muito mais do que um tribunal eclesiástico. Ela se tornou um mecanismo de controle social e de fortalecimento da monarquia, utilizando a religião para justificar a perseguição, a exclusão e o confisco de bens. Foi nesse cenário que a intolerância deixou de ser apenas um discurso e passou a integrar, de forma sistemática, a política do Estado espanhol.
Os cristãos-novos: o novo inimigo da Espanha
As perseguições aos judeus culminaram em violentos massacres, como o de Sevilha, em 1391. Diante da violência, milhares deles aceitaram o batismo cristão como única alternativa para sobreviver. Nascia, assim, um novo grupo social: os cristãos-novos, também conhecidos como conversos.
O que parecia representar o fim da perseguição transformou-se, na prática, no início de uma nova etapa de discriminação.
A partir do final do século XV, espalhou-se pela Espanha a suspeita de que muitos conversos continuavam praticando o judaísmo em segredo. A realidade, porém, era muito mais complexa. Entre os descendentes de judeus havia aqueles que permaneceram fiéis ao judaísmo, os que aceitaram o batismo apenas para escapar da perseguição e continuaram praticando sua antiga religião clandestinamente, os que se converteram sinceramente ao cristianismo e também aqueles que, desiludidos pelos conflitos religiosos, abandonaram qualquer prática de fé.
Apesar dessa diversidade, todos passaram a ser vistos da mesma forma. Bastava ter ascendência judaica para despertar desconfiança. A acusação de “judaizar” — manter secretamente práticas judaicas — raramente era sustentada por provas, mas tornou-se um dos principais fundamentos da atuação inquisitorial.
Ao mesmo tempo, muitos cristãos-novos conquistaram posições de destaque na sociedade espanhola. Atuavam no comércio internacional, nas finanças, na medicina, no direito e na administração pública. Graças ao elevado grau de instrução, diversos conversos alcançaram cargos importantes nas cortes ibéricas e, por meio de alianças matrimoniais, algumas famílias passaram a integrar a própria nobreza.
Essa ascensão social despertou forte reação entre setores da sociedade. Os conversos passaram a ser chamados pejorativamente de “marranos”, termo utilizado para sugerir que sua conversão jamais teria sido sincera. Para seus adversários, o batismo não era suficiente para apagar os vínculos culturais e religiosos herdados do judaísmo.
A propaganda antijudaica explorou esse sentimento de desconfiança de forma sistemática. Os cristãos-novos passaram a ser acusados de ocupar indevidamente os melhores cargos do reino e de disseminar, em segredo, aquilo que pregadores e inquisidores chamavam de “heresia judaica”. O clima de hostilidade alimentou sucessivas explosões de violência. Em Toledo, em 1449, uma revolta terminou no massacre de numerosos conversos. O episódio é revelador porque teve como alvo exclusivamente os cristãos-novos, e não os judeus que continuavam praticando oficialmente sua religião. A perseguição começava a deixar de ser apenas religiosa para assumir características cada vez mais ligadas à origem familiar.
A institucionalização da discriminação
Foi nesse contexto que surgiram os Estatutos de Pureza de Sangue, promulgados pela primeira vez em Toledo, em 1449. Considerados por muitos historiadores um marco na transformação da intolerância religiosa em uma política de exclusão baseada na ascendência, esses estatutos estabeleceram que descendentes de judeus ou de muçulmanos continuariam sendo considerados portadores de um “sangue impuro”, mesmo após gerações de conversão ao cristianismo.
Na prática, isso significava enfrentar restrições para ingressar em universidades, ordens religiosas, corporações de ofício, instituições militares e cargos públicos. Em Portugal e na Espanha, quem pretendesse seguir carreira acadêmica, eclesiástica ou militar precisava apresentar a chamada “habilitação de genere”, documento destinado a comprovar a inexistência de ascendentes judeus ou mouros na família.
Os defensores dos Estatutos sustentavam que a condição judaica era hereditária. Chegava-se a afirmar que o judaísmo era transmitido pelo leite materno e que nem mesmo o batismo seria capaz de eliminar a suposta “impureza” do sangue. Dessa forma, a perseguição deixava de se concentrar na religião professada e passava a atingir a própria origem familiar.
Ao transformar a ascendência em critério de exclusão, os Estatutos de Pureza de Sangue institucionalizaram um sistema de discriminação que perduraria por séculos. Milhares de descendentes de judeus e de muçulmanos continuaram submetidos a restrições legais e sociais impostas pela Coroa e pela Igreja, independentemente da fé que professassem.
Para muitos historiadores, esse modelo representou uma das primeiras formas de discriminação institucional baseada na ascendência. Embora formulado em linguagem religiosa, estabeleceu critérios hereditários de exclusão que anteciparam mecanismos de segregação desenvolvidos posteriormente em outras experiências de racismo na Europa.
Um legado que atravessou os séculos
A Inquisição Espanhola chegou ao fim, mas as ideias que ajudou a consolidar sobreviveram por muito mais tempo. A imagem do judeu como um “estrangeiro permanente”, construída ao longo dos séculos de perseguição, continuou circulando na Europa e influenciou diferentes formas de discriminação muito depois do encerramento dos tribunais inquisitoriais.
Muitos dos estereótipos difundidos entre os séculos XVI e XVIII reapareceram, adaptados a novos contextos políticos e sociais, na propaganda antissemita dos séculos XIX e XX. A religião deixou de ser o único argumento da perseguição, mas antigos preconceitos foram reinterpretados para sustentar teorias nacionalistas e raciais que voltariam a colocar os judeus na condição de “inimigos internos”.
O paradoxo é evidente. Embora os judeus estivessem presentes na Península Ibérica havia mais de quinze séculos e tivessem contribuído de forma decisiva para o desenvolvimento econômico, científico e cultural da região, passaram a ser retratados como elementos estranhos à identidade espanhola e incompatíveis com a construção do Estado.
Diversos historiadores destacam que esse discurso não nasceu espontaneamente entre a população. Ele foi construído e difundido por setores da Igreja, da burocracia estatal e das elites intelectuais, que encontraram no antijudaísmo um instrumento eficaz para fortalecer o poder político, justificar a exclusão social e promover a ideia de unidade nacional.
Mais do que um tribunal religioso, a Inquisição Espanhola tornou-se um mecanismo de controle social e de perseguição institucionalizada. Ao associar religião, ascendência e identidade, criou um sistema de exclusão que marcou profundamente a história da Espanha e deixou consequências que ultrapassaram seu próprio tempo.
Compreender esse processo é fundamental não apenas para entender a história da Inquisição, mas também para reconhecer como discursos de intolerância podem ser construídos, legitimados pelo poder e perpetuados por gerações. É justamente por isso que a Inquisição Espanhola continua sendo objeto de pesquisa e reflexão: seu legado ajuda a compreender as origens de muitos mecanismos de preconceito e discriminação que ainda desafiam as sociedades contemporâneas.
A história da Inquisição Espanhola mostra que a intolerância raramente nasce de um único fator. Ela costuma resultar da combinação entre interesses políticos, disputas econômicas e discursos religiosos que transformam diferenças culturais em justificativa para a exclusão. Conhecer esse passado é um passo essencial para impedir que mecanismos semelhantes continuem se repetindo no presente.