Convidei a jornalista Celia Bensadon para compartilhar conosco um capítulo pouco conhecido da cultura judaica no Norte do Brasil. Ao mergulhar em sua narrativa, somos conduzidos por palavras que funcionam como um bálsamo, revelando como tradições milenares se enraizaram na vida brasileira e ajudaram a moldar a identidade amazônica.
Filha e neta de judeus marroquinos vindos de Tânger no final do século XIX, Celia nos oferece não apenas uma história de imigração, mas um testemunho vivo de coragem, adaptação e esperança — valores que continuam a ecoar na memória nacional.
Quando se fala em imigração judaica para o Brasil, muitos imaginam imediatamente os grandes centros urbanos do Sul e Sudeste. Poucos sabem, porém, que uma das mais fascinantes histórias da diáspora judaica no país começou milhares de quilômetros dali, às margens dos rios amazônicos.
Foi no início do século XIX que os primeiros judeus marroquinos desembarcaram na Amazônia brasileira. Vindos principalmente de cidades como Tânger, Tetuã e Casablanca, eles traziam na bagagem muito mais do que mercadorias: carregavam séculos de história, uma rica tradição religiosa e cultural e, sobretudo, a esperança de recomeçar.
Descendentes dos judeus sefarditas expulsos da Península Ibérica, principalmente da Espanha durante a Inquisição no final do século XV e posteriormente estabelecidos no norte da África, essas famílias fugiam das perseguições e da instabilidade política que marcavam o Marrocos da época. O destino seria uma terra distante, exuberante e praticamente desconhecida: a Amazônia.
Uma nova vida às margens dos rios
Os primeiros registros indicam que famílias judias já viviam no Pará e no Amazonas por volta de 1810. Em 1826, Belém já possuía locais destinados às orações judaicas. Embora ainda não fossem sinagogas formais — a Constituição do Império proibia a construção de templos públicos de religiões não católicas —, as casas transformadas em espaços de culto tornaram-se centros de convivência e preservação da identidade judaica.
A grande expansão dessa imigração ocorreu a partir da década de 1870, impulsionada pelo ciclo da borracha. A riqueza produzida pelo látex transformou a Amazônia em um polo de oportunidades, atraindo famílias de diferentes partes do mundo, entre elas centenas de judeus marroquinos.
Muitos deles se tornaram conhecidos como regatões, comerciantes que navegavam pelos rios amazônicos levando tecidos, alimentos, ferramentas e diversos produtos às comunidades ribeirinhas mais distantes. Em troca, adquiriam produtos regionais, estabelecendo uma extensa rede de comércio que contribuiu para integrar economicamente a região.
Mais do que comerciantes, esses imigrantes tornaram-se protagonistas do desenvolvimento econômico e social da Amazônia.
Comunidades que floresceram
Belém e Manaus transformaram-se nos principais centros da vida judaica amazônica. Ainda no século XIX surgiram as primeiras sinagogas oficialmente estabelecidas e foi criado um dos cemitérios judaicos mais antigos do Brasil, testemunhos da consolidação dessas comunidades.
Mesmo quando o ciclo da borracha entrou em declínio, provocando profundas mudanças econômicas na região, os judeus permaneceram. Adaptaram-se às novas circunstâncias sem abrir mão de sua identidade, preservando tradições religiosas, festas, costumes familiares e valores que continuam presentes até hoje.
Ao longo das décadas, passaram a integrar plenamente a sociedade amazônica, contribuindo para a educação, o comércio, a cultura e a vida comunitária, sempre conciliando a preservação de suas raízes com a construção de uma nova história brasileira.
A fusão de aromas e sabores
Poucos aspectos revelam tão bem esse encontro entre culturas quanto a gastronomia.
A culinária judaico-marroquina chegou à Amazônia carregando aromas de canela, açafrão, cominho, gengibre e outras especiarias características do norte da África. Ao encontrar ingredientes amazônicos abundantes e uma cultura culinária igualmente rica em cores e sabores, nasceu uma combinação singular.
Receitas tradicionais, como o cuscuz marroquino e a adafina — um cozido preparado com carne, grão-de-bico e especiarias, servido tradicionalmente antes e depois do Shabat — ganharam novos ingredientes e interpretações sem perder sua essência.
Essa fusão culinária tornou-se parte da identidade da comunidade. As mulheres tiveram papel fundamental na preservação dessas receitas, transmitidas de geração em geração como verdadeiros patrimônios familiares.
A importância dessa herança motivou inclusive a publicação de um livro dedicado à gastronomia judaico-marroquina amazônica, reunindo receitas, memórias e histórias de famílias que encontraram na cozinha uma maneira de manter vivo o vínculo com suas origens.
Mais do que pratos típicos, essas receitas contam histórias de pertencimento. Afinal, preservar os sabores da infância também é uma forma de preservar a própria identidade.
A memória que resiste
A presença judaica não ficou restrita às capitais amazônicas. Diversas cidades do interior também receberam famílias marroquinas que deixaram marcas profundas na história local.
Óbidos, no oeste do Pará, é um dos exemplos mais emblemáticos. Ali, famílias judias estabeleceram redes de comércio, participaram da vida econômica e construíram uma convivência harmoniosa com a população local.
Essa trajetória é reconstruída no livro Judeus em Óbidos, na Amazônia: imigração, história e ressignificação, fruto de cinco anos de pesquisa. A obra revela como essas famílias preservaram sua identidade religiosa enquanto se adaptavam à realidade amazônica, mostrando que tradição e integração caminharam lado a lado.
Um legado para o Brasil
Conhecer a história da imigração judaica marroquina é ampliar a compreensão sobre a formação do Brasil.
Os imigrantes que chegaram à Amazônia no século XIX trouxeram consigo valores que continuam presentes até hoje: o apreço pela educação, a solidariedade comunitária, a preservação da memória, o espírito empreendedor e o respeito às tradições.
Seu legado está nas sinagogas centenárias, nos cemitérios históricos, nas instituições comunitárias, nos livros, nas receitas transmitidas entre gerações e nas histórias de famílias que ajudaram a construir cidades e fortalecer a economia amazônica.
Mais de duzentos anos depois da chegada dos primeiros imigrantes, a presença judaica continua fazendo parte da identidade do Norte do Brasil. Uma história de coragem, adaptação e esperança que merece ocupar um lugar de destaque na memória nacional.
Ao revisitar essa trajetória, descobrimos que a Amazônia não foi apenas um destino para aqueles que buscavam um novo começo. Tornou-se um lar onde tradições milenares encontraram novas paisagens, novos sabores e novas possibilidades, enriquecendo a cultura local e mudando para sempre o mosaico cultural brasileiro.
Texto de Celia Bensadon – jornalista e filha e neta de judeus marroquinos vindos de Tanger no final do século XIX.