“Não apagueis o Espírito”: diagnóstico do declínio pentecostal no Brasil aponta secularismo, institucionalismo e afrouxamento doutrinário

Pastor Caramuru Afonso Francisco. Foto: AD Belém

O pentecostalismo brasileiro, que começou como um “movimento periférico” e cresceu vertiginosamente graças ao poder do Espírito Santo e ao comprometimento de seus líderes fundadores, dá sinais preocupantes de arrefecimento e esvaziamento. É o que aponta uma série de artigos publicados no site Raízes Pentecostais, de autoria do pastor Caramuru Afonso, com base em uma análise do pastor e comentarista da CPAD José Gonçalves.

O diagnóstico é direto e contundente:

“O pentecostalismo começou como um movimento periférico que, graças ao poder do Espírito Santo e ao forte comprometimento de seus líderes fundadores, conquistou relevância, reconhecimento e prestígio. Contudo, aquilo que foi conquistado por força de intervenções sobrenaturais e muitas lágrimas derramadas dá sinais de arrefecimento e esvaziamento.”

Para José Gonçalves, na base desse esfriamento estão três fatores principais: o secularismo e consumismo, que transformaram igrejas em casas de shows e entretenimento; o institucionalismo, que fomentou disputas por espaço e poder, transformando algumas convenções em “verdadeiras prefeituras”; e o afrouxamento ético e doutrinário, que mundanizou muitas igrejas e as converteu em meros clubes sociais.

“Fica o alerta bíblico: ‘Não apagueis o Espírito’ (1 Tessalonicenses 5.19).”

Um movimento periférico que se perdeu no centro

A série de artigos, dividida em seis partes, faz uma análise detalhada de cada um desses fatores. O pastor Caramuru Afonso destaca que o avivamento pentecostal foi, por natureza, um movimento periférico — ou seja, nasceu nas camadas mais simples da população, entre os desvalidos e despossuídos, e não no “centro da sociedade” ou entre as lideranças eclesiásticas estabelecidas.

“O avivamento pentecostal não ocorreu no ‘centro da sociedade’, não foi um movimento que tenha acontecido a partir das ‘lideranças eclesiásticas’, mas algo que se iniciou no meio da população mais simples.”

Essa característica “periférica” foi uma ação do Espírito Santo, não dos homens, seguindo o modelo centrífugo determinado por Jesus: “sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (Atos 1.8).

No entanto, o pentecostalismo, ao conquistar relevância, reconhecimento e prestígio, passou a querer fazer parte do “centro da sociedade” e a compartilhar do “centro do poder” — um movimento que, segundo os autores, é incompatível com sua natureza periférica.

“O pentecostalismo não pode, jamais, abandonar a periferia, não pode querer fazer parte do ‘centro da sociedade’, não pode almejar compartilhar do ‘centro do poder’, mas, sim, permanecer na ‘periferia’, não se comprometendo com o mundo nem com as suas estruturas sócio-econômico-políticas, que estão todas no maligno.”

Secularismo: o foco nas coisas desta vida

secularismo — definido como a “exclusão, rejeição ou indiferença à religião e a ponderações teológicas” — é apontado como o primeiro grande fator de declínio. Trata-se da adoção de uma visão que suprime a eternidade e passa a considerar apenas as coisas materiais.

“A partir do momento que passamos a ter como foco, como objetivo, as coisas desta vida, não mais servir a Jesus, estar à mesa com Ele e adorá-l’O, como fez a família de Betânia, mas, sim, querer tirar vantagens materiais da obra de Deus, como, naquela mesma oportunidade, fez Judas Iscariotes, passamos a dar lugar ao diabo e a nos afastar da presença de Deus.”

O secularismo explica a entrada de doutrinas como a confissão positiva, a teologia da prosperidade e até a teologia da libertação — precisamente porque valorizam as coisas terrenas.

“As pessoas já não mais se esforçam para a sua salvação, para o seu preparo para a eternidade, concentrando suas atenções no bem-estar material, no sucesso profissional, na melhoria das condições de vida, passando a exigir das igrejas locais atitudes que lhes proporcionem este conforto puramente terreno.”

O resultado? O culto deixa de ser um “sacrifício que se oferece a Deus” para se tornar “um instante de distração, de entretenimento, de confraternização, um ‘encontro social’, onde um grupo de pessoas vem se ‘divertir’, ‘esquecer dos problemas’, ‘ouvir uma boa música e uma boa reflexão'”.

Consumismo: a raiz de todos os males

consumismo — o ato de consumir e comprar em demasia — é apontado como uma demonstração de uma mentalidade voltada para as coisas desta vida, onde prevalecem os instintos e a vaidade.

O pastor Aldery Nelson Rocha, citado no artigo, explica como o consumismo opera na alma humana:

“Os olhos veem um artigo que a mente está procurando há dias. A mente tem vontade de comprar. A mente sabe que, no momento, ainda não tem condições de comprar. O intelecto é mais racional e avisa que não pode. O sentimento entristece-se, porque, na festa, o ego (que habita na mente) será envergonhado porque seu status é conhecido vaidosamente como ‘de poder aquisitivo’. A vaidade sente-se mal e entra pela mente. Sem importar-se se é possível pagar ou não, a alma compra.”

Essa lógica consumista, quando aplicada à vida eclesiástica, transforma a igreja em um negócio e os fiéis em clientes — e leva ao “apagamento do Espírito”.

Afrouxamento ético e doutrinário: a complacência com o pecado

Quando a igreja começa a buscar atração com base em elementos mundanos, inicia-se uma complacência com o pecado e uma alteração gradual da conduta e do comportamento.

“A começar dos bons costumes, ‘que não são doutrina’, como gostam de ressaltar os promotores deste afrouxamento, pouco a pouco se vai alterando a conduta e o comportamento, até chegarmos a um ponto em que não há mais diferença entre o mundo e os que cristãos se dizem ser.”

O artigo alerta que, em vez de promover a retirada das pessoas do mundo para o reino de Deus, há uma verdadeira entrega dos ambientes consagrados à adoração ao Senhor para o mundo.

“Os templos passam a ser simplesmente ‘casas de shows’, ‘clubes sociais’, totalmente irrelevantes para a missão que se lhes deu o Senhor Jesus.”

O pastor Ciro Sanches Zibordi é citado para lembrar que o adjetivo “extravagante” não pode combinar com a adoração, pois extravagância significa “esquisitice, estroinice, dissipação, libertinagem”.

Institucionalismo: as convenções como “prefeituras”

O último fator apontado é o institucionalismo — o fomento de disputas por espaço e poder que transformou algumas convenções em “verdadeiras prefeituras”.

“Num ambiente onde predomina o secularismo, o consumismo e o afrouxamento ético e doutrinário, tem-se que há a proliferação das chamadas ‘obras da carne’… A carne, ou seja, a natureza pecaminosa do homem, produz diversas obras, entre as quais, as inimizades, porfias, iras, emulações, pelejas e dissensões.”

O resultado são disputas pelo poder, pela liderança e a criação de uma “burocracia” e “politicagem” eclesiásticas que, como disse José Gonçalves, “não têm nada a dever com o que estamos acostumados a observar na disputa pelo poder político na sociedade” .

O artigo faz ainda uma crítica ao modelo de “ministérios” que caracteriza as Assembleias de Deus:

“A própria história das Assembleias de Deus no Brasil gerou uma certa ‘desorganização administrativa’, com a adoção de um sistema misto de governo, onde se amalgamaram elementos dos três sistemas existentes (episcopalismo, presbiterianismo e congregacionalismo), o que fez com que a base do governo fossem os ‘ministérios’ que sempre estão centrados na figura de uma liderança pessoal, o que realçou o culto à personalidade e a predominância de lideranças carismáticas.”

O inimigo e as falsas saídas

O inimigo, segundo o artigo, aproveita-se deste cenário para alardear entre a membresia heresias como o “desigrejamento” , o “movimento celular” e outras falsas doutrinas que atacam a existência de estruturas eclesiásticas.

“Entretanto, a existência de uma estrutura na qual possa se desenvolver a Igreja é algo necessário e bíblico, pois não é possível um corpo sem que seus membros estejam devidamente ordenados, com os devidos órgãos, tecidos, medulas e juntas.”

A solução, portanto, não é abandonar as instituições, mas abandonar o institucionalismo.

O alerta final

O artigo conclui com um chamado à volta à essência pentecostal:

“A igreja local, a denominação eclesiástica passa a ser um mero grupo social, sem função, com crise de identidade e que, assim, pode ser manipulado pelos vários interesses que passam a prevalecer, até que venha a desaparecer completamente enquanto tal, já que passa a não ter qualquer relevância na sociedade e a não mais ter qualquer relação com Deus, morrendo enquanto instituição.”

A análise do pastor José Gonçalves, desenvolvida por Caramuru Afonso, serve como um alerta profético para a igreja brasileira. O diagnóstico é severo, mas o remédio é conhecido: retornar à simplicidade do evangelho, à dependência do Espírito Santo, à santidade e ao compromisso com a missão.

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