“Doutorado” de seis meses e universidade falsa: teólogo expõe currículos fraudulentos no meio pentecostal

O teólogo pentecostal Gutierres Siqueira publicou um alerta em suas redes sociais sobre o que chamou de “vício do currículo falso” entre lideranças evangélicas. Ele denuncia o crescimento de “acadêmicos fake” sustentados por fraudes curriculares e pede mais seriedade e honestidade intelectual no meio pentecostal.

Gutierres, que é reconhecido por sua atuação na defesa de uma teologia pentecostal séria e academicamente fundamentada, inicia sua reflexão reconhecendo os avanços: “O estudo convencional e acadêmico tem avançado no meio pentecostal e isso é uma ótima notícia. Cresce o número de pentecostais buscando qualificação intelectual de verdade.”

No entanto, ele lamenta: “Infelizmente, cresce também o número de ‘acadêmicos fake’ sustentados por fraudes curriculares.”

O caso do “doutorado” de seis meses

Gutierres relata a primeira vez que se deparou com o problema. Um pregador famoso começou a afirmar nos púlpitos que era doutor em teologia por uma faculdade norte-americana. Curioso, o teólogo foi investigar.

“Fui investigar. A instituição realmente existia e ficava na Flórida, nos EUA. Mas, olhando melhor, descobri que o tal ‘doutorado’ era um curso por correspondência de apenas seis meses. Sim, um ‘doutorado’ de seis meses.”

Ele descobriu ainda que o dono da escola era um brasileiro residente nos Estados Unidos. O caso ilustra o que Gutierres chama de “diplomas duvidosos” — títulos que impressionam quem não conhece o funcionamento do meio acadêmico, mas que não resistem a uma investigação mínima.

Universidade que nunca existiu

Mais recentemente, o teólogo se deparou com um caso ainda mais grave. Um pastor foi apresentado com um currículo grandioso, afirmando ter estudado em uma universidade norte-americana. Gutierres, que nunca tinha ouvido falar da instituição, resolveu pesquisar.

“Usei Google, sites do governo americano, pesquisas em banco de dados acadêmicos. O resultado foi o mesmo em todas as buscas: ‘Essa universidade não existe e nunca existiu nos EUA’.”

A conclusão é direta: “Um pastor evangélico simplesmente inventou uma universidade no currículo.”

As armadilhas de Oxford e Cambridge

Gutierres também chama a atenção para fraudes mais sofisticadas. Algumas pessoas afirmam ter formação em Oxford ou Cambridge, induzindo o público a pensar nas prestigiadas universidades inglesas — University of Oxford e University of Cambridge.

Na realidade, segundo ele, fizeram apenas algum curso livre promovido por brasileiros em hotéis das cidades que levam esses nomes.

“A ambiguidade, claro, não costuma ser acidental. Em muitos casos, ela é construída deliberadamente para impressionar quem não conhece o funcionamento do meio acadêmico”, afirma.

O grande sinal vermelho: cadê a tese?

O teólogo pentecostal oferece um conselho prático para os fiéis identificarem currículos falsos:

“O comum nesses casos é que você nunca verá a dissertação de mestrado ou a tese de doutorado dessas pessoas publicada em algum lugar. Também não encontrará artigos em revistas científicas nem menções aos seus trabalhos em outros estudos acadêmicos. Simplesmente, não verá nada disso porque esses trabalhos não existem.”

Gutierres explica que isso seria “impossível para alguém que realmente possui uma formação acadêmica verdadeira”. Uma tese de doutorado, por exemplo, é um documento público, registrado em bibliotecas universitárias e, cada vez mais, disponível em repositórios digitais acessíveis a qualquer pesquisador.

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