Rede de pregadores pró-Trump avança em cultos e congressos no Brasil

Crédito imagem: Intercepte

Uma leva de pregadores norte-americanos alinhados a Donald Trump tem percorrido o Brasil nos últimos meses. Em congressos e cultos, profecias e promessas de milagres se misturam a recados políticos. Pesquisadores e pastores progressistas veem tentativa de influenciar lideranças locais e preparar terreno para projetos da direita cristã no País e na América Latina.

O movimento envolve nomes do pentecostalismo midiático dos EUA. Eles falam de guerra espiritual, prosperidade e “destinos” de nações. E, na avaliação de especialistas, conectam fé e mobilização eleitoral. A estratégia repete ondas anteriores de evangelização vindas do Norte e ganha impulso com a força do trumpismo entre conservadores brasileiros.

Profecias em série e recados a líderes

Nos dias 5 e 6 de setembro, no Rio, o pastor Samuel Rodriguez, liderança latina próxima de Trump, profetizou a Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo: “todo gigante cairá”. No dia seguinte, na Avenida Paulista, Malafaia confrontou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, em ato pró-Jair Bolsonaro. Rodriguez preside a Conferência Nacional de Liderança Cristã Hispânica e já aconselhou governos nos EUA. Para progressistas, tornou-se um elo entre o trumpismo e parte do evangelicalismo brasileiro.

Em julho, o pastor Christopher Beleke, de Dallas, convidado da Conferência Internacional do Evangelho Sobrenatural, em Balneário Camboriú (SC), declarou que o Brasil “passará por uma limpeza semelhante à de El Salvador”. A referência foi ao país governado por Nayib Bukele sob regime de exceção. Beleke previu abertura de “mais de mil megaigrejas”, entrada de investimentos e líderes religiosos viajando em jatos particulares.

Em janeiro, a profetisa Chantell Cooley abençoou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em culto da Comunidade das Nações, em Orlando. Disse que o Brasil é “escolhido” e que “Deus levantaria a família”. Cooley, empresária do setor educacional, defende o “sacerdócio de mercado” — linguagem que aproxima fé e negócios.

Próximas agendas e rostos do trumpismo hispânico

Para novembro, está prevista a vinda do apóstolo Guillermo Maldonado a Osasco (SP), no evento “Colheita Mundial Brasil 2025”, entre 12 e 15. Hondurenho radicado em Miami, ele lidera o ministério El Rey Jesús, apresenta o programa “The Supernatural Now” e é figura frequente em cruzadas de cura e prosperidade. Pastores brasileiros dizem que Maldonado, ao lado de Samuel Rodriguez, é uma das vozes mais influentes do trumpismo entre hispânicos nos EUA.

A organização da agenda de Maldonado no País envolve líderes de diferentes denominações. Haverá reuniões com empresários, encontros com fiéis e treinamento de pastores. O material de divulgação promete “milagres criativos”, “cura” e “empoderamento” de lideranças — linguagem típica de cruzadas pentecostais transnacionais.

Especialistas veem projeto político-religioso

Para Hermes Fernandes, pastor da Igreja Ninho da Fênix e crítico da extrema direita religiosa, a atual leva de pregadores retoma o padrão observado antes de 1964, agora embalada pelo trumpismo. “Em nome da fé, plantam desconfiança e obediência cega”, afirma. Ele sustenta que profecias e “revelações” têm sido usadas para descredibilizar instituições e defender agendas alinhadas a Trump.

Magali Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser), diz que há incentivo à presença de grupos missionários no Brasil e em países vizinhos. Segundo ela, essas iniciativas conectam “liberdade religiosa” à oposição a pautas de direitos, gênero e questões raciais. A pesquisadora vê retribuição política: líderes conservadores apoiam Trump e recebem respaldo para avançar sua influência no Sul global.

Contradições e método

Há um paradoxo em lideranças hispânicas que apoiam Trump e, ao mesmo tempo, atuam em comunidades afetadas por políticas migratórias restritivas nos EUA. Segundo Magali Cunha, pregadores vinculados a esses grupos tendem a diferenciar “perseguição” de aplicação da lei, orientando indocumentados a buscar regularização — posição usada para conciliar o apoio político com a realidade das suas bases.

A escolha de mensageiros latinos ou com forte presença entre hispânicos não é casual, diz Hermes Fernandes. A leitura é que rostos e sotaques “próximos” facilitam a recepção no Brasil. Eventos reúnem milhares, associam fé a sucesso e oferecem redes de afiliação transnacionais. O pacote inclui cursos de liderança, marketing religioso e promessas de prosperidade.

Histórico e ciclos de influência

Pregadores dos EUA atuam no Brasil desde o século 19. A presença cresceu nos anos 1960 e 1970, com o surgimento de vertentes que mais tarde seriam classificadas como neopentecostais. A partir de 2010, debates sobre gênero e direitos ampliaram a reação de grupos conservadores. O fenômeno ganhou novo fôlego na primeira gestão de Trump. Empresas com interesses em mineração e grandes empreendimentos também apoiam iniciativas religiosas, segundo pesquisadores, quando elas convergem com seus projetos.

O que está em jogo

As recentes agendas mostram que religião e política seguem entrelaçadas no campo evangélico. Para apoiadores, as visitas trazem avivamento, redes internacionais e “cobertura espiritual” para o País. Para críticos, elas importam pautas e métodos do trumpismo e reforçam a polarização. Entre promessas de milagres e profecias sobre o futuro do Brasil, o efeito mais imediato é a mobilização de lideranças e públicos em torno de uma agenda que vai além do culto.

Personagens citados
• Silas Malafaia, pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
• Samuel Rodriguez, pastor da New Season e presidente da Conferência Nacional de Liderança Cristã Hispânica (EUA).
• Christopher Beleke, pastor do Faith Center, Dallas.
• Chantell Cooley, empresária e líder religiosa.
• Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador.
• Guillermo Maldonado, apóstolo do ministério El Rey Jesús, Miami.
• Magali Cunha, pesquisadora do Iser.
• Hermes Fernandes, pastor da Igreja Ninho da Fênix.

Agenda
• “Colheita Mundial Brasil 2025”, 12 a 15 de novembro, Osasco (SP) — participação anunciada de Guillermo Maldonado.

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