Receber unção com óleo é ou não correto? pastor responde

A ideia de unção é algo que vem desde os tempos remotos do Antigo Testamento. No contexto da cultura judaica, isso era reputado como de grande valor, pois os judeus acreditavam que o óleo ou azeite tinha propriedades terapêuticas e medicinais. Gênesis nos mostra como Jacó, desde o princípio, ungiu a coluna que erigira em Betel (Gênesis 35:13-15). Tipos de unção:

1º) De coisas

O tabernáculo e os objetos nele usados (Êxodo 30:22-33; Êxodo 40:9-11; Levítico 8:10; Êxodo 29:33).

2º) De pessoas

Reis eram ungidos com óleo derramado sobre suas cabeças, simbolizando consagração ao ofício (Samuel ungiu Saul como rei de Israel — 1 Samuel 10:1; Elias ungiu Jeú rei de Israel — 1 Reis 19:16). Essa unção sobre os reis gerou o termo “ungido do SENHOR” (2 Samuel 1:14).

3º) Sacerdotes

Quando um sacerdote era ungido, era-lhe conferido um ofício vitalício (Levítico 4:3; Levítico 8:12).

4º) Profetas

Como Eliseu (1 Reis 19:16). Dessa forma, a unção fazia distinção, santificando o destinado para o serviço de Deus.

5º) Interpretação defendida

A interpretação que advogo ser correta sobre o assunto é que a imposição de mãos substitui a unção com óleo do Antigo Testamento quando se refere à consagração para diaconato, presbiterato etc. Basta conferir Atos 6:6; Atos 13:2-3; Atos 14:23; 1 Timóteo 4:14; 1 Timóteo 5:22.

A imposição de mãos veio como um dos meios pelos quais Deus transmite dons e bênçãos às pessoas. Essa prática tornou-se uma doutrina fundamental na igreja primitiva (Hebreus 6:2): “E da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno.”

Jesus não ungiu os seus discípulos derramando óleo sobre suas cabeças para se tornarem apóstolos; nem Cristo recebeu qualquer unção humana para realizar seu ministério terreno, mas tão somente — como ele mesmo declara — (Isaías 61:1; Lucas 4:18-19):
“O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me a curar os quebrantados do coração; a apregoar liberdade aos cativos e dar vista aos cegos; a pôr em liberdade os oprimidos; e anunciar o ano aceitável do Senhor.”

No Novo Testamento entendemos que o Espírito Santo, no ato da conversão do pecador, substitui o óleo da unção, sendo Ele mesmo a própria unção — não mais sobre pessoas específicas, mas agora sobre todos os filhos de Deus (1 João 2:20,27; Efésios 1:13; 2 Coríntios 1:21; Efésios 4:30).

6º) Ungir os enfermos

Tiago 5:14-15 diz:
“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.”

Esse texto não serve de base para a prática existente em muitas igrejas hoje: ungir qualquer pessoa durante ou depois do culto, ungir objetos, consagrar pessoas por meio da unção com óleo, muito menos para a “extrema unção” praticada pela Igreja Católica.

Alguns acreditam que o óleo citado por Tiago é medicinal, mas essa interpretação não parece ser a mais correta. Vejamos:

a) A unção com óleo era um ato simbólico da ação curadora do Espírito Santo (Marcos 6:13); não podemos atribuir poder miraculoso ao óleo, gerando misticismo.

b) Não é o óleo que cura, mas a invocação do nome do Senhor (“ungindo-o com o óleo em nome…”).

c) A fé deve entrar em ação (“… e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará…” v. 15).

d) A cura pode vir com o perdão dos pecados (“e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados…” v. 15). Pode ser que a enfermidade seja resultado da ação disciplinadora de Deus por algum pecado que a pessoa tenha cometido (Provérbios 28:13):
“O que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.”

e) A unção deve ser ministrada unicamente a pessoas doentes.

f) O óleo deve ser aplicado sobre o enfermo, não sobre a enfermidade.

g) A unção com óleo não significa “benzer” o doente, o que tira seu sentido bíblico.

h) Somente os presbíteros ou ministros de fato podem ministrar a unção, não sendo atribuição das irmãs ou de mais ninguém (“chame os presbíteros…” v. 14).

Citações dos Pais da Igreja

Tertuliano (séc. II)

“A unção é espiritual, e aqueles que são ungidos pelo Espírito são verdadeiramente consagrados.”
(De Baptismo, cap. 7)

Cipriano de Cartago

“A ordenação se confirma pela imposição das mãos dos anciãos.”
(Epístola 67)

Santo Agostinho

“A unção visível é sinal da unção invisível do Espírito.”
(Tratado sobre 1 João 3)

Esses testemunhos mostram que desde cedo a Igreja reconheceu que o símbolo físico não substitui a realidade espiritual inaugurada em Cristo.

  1. Pais da Igreja e Tiago

Orígenes (séc. III)

“O presbítero visita o enfermo para orar e interceder; o óleo é símbolo da misericórdia de Deus que desce sobre o aflito.”
(Homilias sobre Levítico)

João Crisóstomo

“Não é o óleo, mas a oração, que opera; o óleo aponta para a compaixão divina.”
(Homilia 3 sobre Tiago)

Beda, o Venerável

“O óleo não cura por si; é santo porque é aplicado em nome do Senhor.”

A tradição cristã antiga nunca interpretou Tiago 5 como autorização para unções indiscriminadas, objetos ungidos ou “extrema unção”.

  1. Aplicação prática para a igreja de hoje
  2. Evitar misticismo:
    Óleo não tem poder em si; Deus tem.
  3. Foco bíblico:
    Unção só em enfermos e por presbíteros.
  4. Entender a unção verdadeira:
    Cada crente já tem a unção do Espírito (1 João 2:20,27).
  5. Discernimento pastoral:
    A imposição de mãos permanece como prática de consagração.
  6. Pureza doutrinária:
    A igreja deve evitar práticas extrabíblicas, como “ungir carteiras”, “ungir portas”, “ungir objetos”, casas, carros etc.(Extraído da apostila “Não fuja das perguntas!”autor Pr.Paulo Rodrigues.)

Pastor Paulo Rodrigues
AD COMADESMA de Colinas-TO

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