“Pentecostal reformado não existe no Brasil”: Pastor César Moisés explica contradição teológica

O 1º Simpósio de Teologia Pentecostal, promovido pela Faculdade Cidade Teológica Pentecostal, foi palco de um debate que reflete uma das tensões teológicas mais atuais do meio evangélico brasileiro. O professor e mestre César Moisés afirmou durante uma mesa-redonda do evento que não acredita na possibilidade de um “pentecostal reformado” no Brasil — e explicou as razões teológicas, históricas e práticas para sua posição.

“Eu acredito em reformado pentecostal. Agora, pentecostal reformado, não acredito.”

Por que a contradição?

Segundo o professor, a questão não é apenas teológica, mas também prática e histórica. Ele faz uma distinção importante entre dois movimentos opostos:

MovimentoO que acontece
Reformado pentecostalO crente reformado (calvinista) tem uma experiência com o Espírito Santo e faz acomodações teológicas para comportá-la. Ele continua sendo reformado, mas absorve a experiência pentecostal sem abrir mão de suas convicções reformadas.
Pentecostal reformadoO crente que cresceu ou se converteu no pentecostalismo, mas depois abraça a teologia reformada. No Brasil, segundo César Moisés, isso quase sempre significa abandonar a experiência com o Espírito Santo.

“A primeira coisa que a pessoa que diz que é pentecostal e se torna reformado faz no Brasil é deixar de crer na experiência que ele teve com o Espírito Santo. Então ele não tem como ser pentecostal, ele deixa de ser.”

Essa percepção não é isolada. O teólogo Gutierres Fernandes Siqueira observa que muitos jovens que se autodenominam “pentecostais reformados” conhecem bem a teologia reformada, mas pouco ou nada sabem da teologia pentecostal — tendo lido inúmeros livros de teólogos calvinistas sem nunca terem se aprofundado na literatura pentecostal clássica.

O que define o pentecostalismo?

Para entender a contradição apontada, é preciso compreender o núcleo da identidade pentecostal. O pentecostalismo clássico não é apenas uma experiência litúrgica ou um estilo de culto mais “animado”. Ele se define por uma pneumatologia específica: a crença no Batismo no Espírito Santo como uma experiência distinta da conversão, que capacita o crente para a missão evangelística, com a evidência inicial do falar em outras línguas.

Sem essa crença — ou quando ela é reduzida a uma mera experiência emocional — o pentecostalismo perde seu núcleo identitário. Como afirma Siqueira:

“O continuísmo [crença na continuidade dos dons espirituais] é parte essencial do pentecostalismo, mas o pentecostalismo não se resume ao continuísmo. O pentecostalismo não está voltado apenas para a capacitação espiritual dos dons… mas, acima de tudo, busca o revestimento de poder para sair às ruas e vielas deste mundo numa proclamação evangelística com autoridade, coragem sobrenatural e milagres.”

“Pentecostal reformado” existe nos livros, mas não na prática

O professor César Moisés reconhece que há livros — como “O Pentecostal Reformado” , de Walter e John McAlister, publicado pela Edições Vida Nova — que defendem a compatibilidade entre as duas tradições, argumentando que o calvinismo pode ajudar a evitar excessos do pentecostalismo moderno.

No entanto, ele alerta que, na prática brasileira, o resultado é diferente:

“O pentecostal reformado… no Brasil, ele quando se diz reformado, ele vem pra escola dominical perturbar professor, ele vem perturbar pastor, ele vem incomodar esse e aquele, porque ele acha que a TULIPE é a última bolacha do pacote que ele encontrou.”

A referência à TULIPE — acrônimo dos cinco pontos do calvinismo (Total Depravação, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos) — indica que muitos jovens, ao abraçarem o calvinismo, adotam uma postura proselitista dentro de suas próprias igrejas, questionando lideranças e promovendo divisões.

O fenômeno global e a exceção brasileira

No cenário global, a relação entre reformados e pentecostais é mais complexa. Existem, sim, reformados carismáticos — como Martyn Lloyd-Jones, pastor da Capela de Westminster — que mantinham uma experiência carismática sem abrir mão da teologia reformada.

No entanto, o professor alerta que, fora do Brasil, o movimento costuma ser inverso:

“O Jack Deere é um deles. Ele era cessacionista [reformado que não acreditava na continuidade dos dons]. Foi uma experiência poderosa de enfermidade de uma filha que fez ele mudar de ideia.”

Ou seja, há exemplos de reformados que se tornaram carismáticos ou pentecostais por causa de uma experiência. O que não se vê, segundo César Moisés, é o caminho contrário sem que a experiência pentecostal seja abandonada.

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