O pastor e teólogo César Moisés, autor do livro Pentecostalismo e Pós-Modernidade (CPAD), entre outras grandes obras, publicou um alerta em suas redes sociais sobre o cessacionismo — doutrina que defende o fim dos dons espirituais e das manifestações sobrenaturais —, especialmente entre assembleianos que, segundo ele, têm flertado com essa posição teológica.
Moisés recorre à história das Assembleias de Deus no Brasil, lembrando que a denominação foi fundada por Daniel Berg e Gunnar Vingren, dois jovens que acreditaram em profecias e revelações para guiar seus passos missionários.
“Peço-lhes que observem as imagens nos prints a seguir e reflitam seriamente se é justo, honesto e correto, da parte de vocês, concordar com tal posição teológica e, pior, disseminá-la, disfarçadamente, nos púlpitos assembleianos, até em espaços privilegiados e oficiais, quando a igreja na qual vocês estão falando só foi fundada graças a dois jovens que criam em profecia e/ou visão/revelação” — escreveu.
“Profecias e Revelações”
César Moisés também criticou um evento intitulado “Profecias e Revelações nos Dias de Hoje” , realizado no dia 14 de julho, com a pergunta provocativa: “Será que todo ‘Deus me disse’ deve ser aceito?” O teólogo alerta que, embora alguns argumentos apresentados não sejam errados, eles trazem embutidos pressupostos antipentecostais.
“Posso me enganar sobre o conteúdo da aula gratuita, mas já ouvi, inclusive do mesmo irmão, coisas mais ou menos como: ‘A verdadeira profecia é a Bíblia’, ‘tudo que Deus tinha de falar já disse nas Escrituras, portanto qualquer nova revelação deve ser rejeitada'” — afirmou.
Segundo ele, o problema está em instruir sobre o tema com quem não crê no mesmo que os pentecostais creem.
“Há claramente o uso de argumentos que não são errados, contudo, trazem embutido coisas que não são totalmente certas, escriturísticas e, a bem da verdade, são antipentecostais e têm como alvo desconstruir a nossa fé” — alertou.
Berg e Vingren: profecia e direção divina
Para fundamentar seu argumento, César Moisés recorreu à biografia dos fundadores das Assembleias de Deus no Brasil. Ele publicou trechos de livros como “Memórias de Daniel Berg” e “Diário do Pioneiro – Gunnar Vingren” , nos quais os missionários relatam como receberam direção divina por meio de profecias.
Em um dos trechos, Daniel Berg descreve:
“Em uma daquelas reuniões durante esse período de oração, notamos que um dos irmãos foi arrebatado em espírito de maneira especial, como um arrebatamento profético […] Um outro irmão, Adolfo Ulldin, recebeu do Espírito Santo palavras maravilhosas, e vários mistérios sobre o meu futuro lhes foram revelados. Entre outras coisas, o Espírito Santo falou através desse irmão que eu deveria ir para o Pará”.
Em outro trecho, Gunnar Vingren relata:
“Certo dia, o dono da casa onde Gunnar Vingren se hospedava recebeu de Deus uma revelação e profetizou para nós que iríamos para o Pará. Esse nome era uma orientação para nós, apesar de nunca o termos ouvido antes”.
César Moisés destaca que os missionários não aceitaram a palavra profética acriticamente, mas buscaram confirmação em oração durante dias.
O que é o cessacionismo?
O cessacionismo é a posição teológica que defende que os dons espirituais extraordinários — como profecia, línguas e cura — cessaram após a morte dos apóstolos ou com a conclusão do cânon bíblico. Essa visão é comum em tradições reformadas e presbiterianas.
César Moisés, no entanto, argumenta que o cessacionismo é incompatível com a história e a identidade pentecostal:
“Acredito que tal instrução continua válida e sendo repassada nos cultos de ensino, pregações, aulas de EBD etc. Desconheço igualmente que qualquer igreja Pentecostal, minimamente responsável, ensine que profecias atuais tenham peso canônico e sejam acolhidas acriticamente”.
Reação de outros teólogos pentecostais
A publicação de César Moisés gerou ampla repercussão entre lideranças e teólogos pentecostais.
O teólogo Geremais Couto comentou:
“A insistência no cessacionismo é um erro exegético, interpretativo, teológico e histórico. Quem tem domínio da exegese e os nega (as manifestações das línguas e os dons em geral), peca contra a própria Escritura”.
O pastor e teologo Claiton Pommerening ratificou: “Claríssimo”.
O teólogo Esdras Costa Bentho acrescentou:
“Para os pentecostais, a experiência com o Espírito Santo é central, mas isso não significa que qualquer manifestação ou suposta revelação seja aceita cegamente. Existe um equívoco comum de que o movimento é puramente emocional ou sem critérios, quando, na verdade, a teologia e a prática pentecostais são profundamente balizadas pelo discernimento coletivo”.
A defesa do discernimento
César Moisés destacou que não se trata de aceitar toda experiência acriticamente, mas de rejeitar a desconstrução da fé pentecostal:
“E não me venham com argumentos bibliolatras porque vocês não são mais crentes e piedosos que Gunnar Vingren e Daniel Berg, que eram homens tementes a Deus e conservadores. E sim, conheço a história dos crentes em Santa Catarina que foram advertidos por Vingren por causa dos seus excessos. Isso não contraria meu argumento, ao contrário, corrobora com o que disse acerca de não aceitarmos toda experiência acriticamente, pois priorizamos a Bíblia”.