“Feminina, mas machista”, diz pesquisador sobre contradições da Assembleia de Deus

Frida Vingren. (Foto: Reprodução / Pinterest)

A Assembleia de Deus é a maior denominação evangélica do Brasil, com mais de 12 milhões de membros segundo o Censo de 2010, e está presente em praticamente todos os centros urbanos do país . Mas, para o pesquisador Gedeon Alencar — doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP e autor de “Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011” —, a denominação não pode ser compreendida como uma igreja una e homogênea. Ela é, antes, um retrato fiel do Brasil, com todas as suas contradições.

Gedeom participou de um podcast com o pastor Sezar Cavalcante onde falou sobre a HISTÓRIA DOS PENTECOSTALISMOS NO BRASIL.

“A Assembleia de Deus é brasileira, brasileiríssima. Ela pode não ser a cara do Brasil, mas é um retrato fiel… Como o Brasil, é moderna, mas conservadora; presente, mas invisível; imensa, mas insignificante; única, mas diversificada; plural, mas sectária; rica, mas injusta; passiva, mas festiva; feminina, mas machista; urbana, mas periférica; mística, mas secular; carismática, mas racionalizada; fenomenológica, mas burocrática; comunitária, mas hierarquizada” .

Uma igreja feminina construída por mulheres

Apesar da liderança institucional ser majoritariamente masculina, a base da Assembleia de Deus é predominantemente feminina. Segundo Alencar, as igrejas pentecostais no Brasil são construídas pelo grupo que ele chama de “PPPP” — pobres, pretos, periféricos e pentecostais — e, nesse universo, as mulheres são a força motriz .

“Nossas igrejas são femininas, construídas por mulheres, sustentadas financeiramente por mulheres, levantadas, construídas e mantidas por elas” .

O pesquisador aponta que, desde o início do movimento pentecostal no Brasil, as mulheres foram fundamentais para a expansão da igreja. Ele relembra a história de uma senhora analfabeta que, ao receber um Evangelho de João, começou a ler e a pregar para sua comunidade, dando origem a uma igreja . O próprio missionário Gunnar Vingren reconheceu: “Eu mesmo fui salvo por uma irmã evangelista” .

O apagamento das mulheres na história oficial

No entanto, essa presença feminina massiva não se reflete na historiografia oficial. Alencar afirma que as mulheres foram “propositalmente apagadas” da história das Assembleias de Deus .

“Quais nomes de mulheres eu poderia apontar nessas décadas que são fundamentais e poderiam entrar na relação de legado e louvor na história assembleiana? Elas não foram historiografadas, elas não foram registradas, elas não foram reconhecidas, elas foram propositalmente apagadas” .

O caso mais emblemático é o de Frida Vingren, esposa do missionário Gunnar Vingren. Ela liderou a igreja no Rio de Janeiro durante a década de 1920, dirigiu o jornal oficial, pregava e ensinava Bíblia — mas foi silenciada, internada em hospital psiquiátrico e apagada da história oficial após conflitos com líderes machistas . Alencar diz que “a igreja está sendo dirigida pela irmã Frida e os obreiros”, conforme registrado no diário de Gunnar, mas sua contribuição foi sistematicamente ignorada .

A Convenção de 1930 e o retrocesso

Segundo o historiador, um marco do machismo institucional nas Assembleias de Deus foi a Convenção de 1930, realizada em Natal, que proibiu o ministério feminino. Para Alencar, essa proibição é uma prova de que o ministério feminino existia e incomodava . Segundo ele, a convenção foi motivada, em grande parte, pela atuação de Frida Vingren .

“Se não existia, precisava proibir” .

Machismo como reflexo da sociedade

O pesquisador ressalta que o machismo dentro das Assembleias de Deus não é uma exclusividade religiosa, mas um reflexo da sociedade patriarcal brasileira. Ele compara o funcionamento da denominação a uma genealogia bíblica: “é macho dando cria a macho” .

Ainda assim, Alencar destaca que as mulheres encontraram formas de exercer poder mesmo sem acesso formal ao púlpito — por meio da profecia, da articulação em grupos de oração e do “silêncio enigmático” que pode desestabilizar qualquer líder.

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