Igreja Presbiteriana do Tocantins propõe restrições ao Legendários: riscos de “desvio do Evangelho”

Foto: Reprodução Legendários

A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) deve decidir, ainda neste mês, se o movimento cristão Legendários é compatível com sua doutrina. A proposta, que será votada durante a reunião do Supremo Concílio — instância máxima da denominação — a partir do dia 26 de julho, em Manaus, tem origem em um documento elaborado por um sínodo da IPB no Tocantins. As informações são da Folha de S. Paulo.

O parecer recomenda que pastores, presbíteros, diáconos e demais membros da igreja não participem nem incentivem a adesão ao Legendários. O movimento seria incompatível com os princípios da tradição reformada por utilizar práticas associadas ao universo de coaching, técnicas motivacionais e experiências de forte impacto emocional.

“Essas metodologias poderiam relativizar a centralidade das Escrituras e da obra de Jesus Cristo, além de transformar práticas religiosas em uma experiência baseada em desempenho e pertencimento a um grupo” — aponta o documento.

O que é o Legendários?

O Legendários é um movimento cristão voltado exclusivamente para homens, criado em 2015 na Guatemala pelo pastor Chepe Tupzu, da Igreja Casa de Deus. Presente no Brasil desde 2018, o movimento propõe retiros com desafios físicos, atividades em ambientes de natureza e mensagens religiosas com foco na chamada “masculinidade bíblica”, no papel familiar e na responsabilidade dos homens como provedores e protetores.

Os eventos, chamados de “TOP” (Track Outdoor Potential), consistem em quatro dias de “conexão com a natureza” e intensas caminhadas. Os pacotes variam de R450amaisdeR450amaisdeR 81 mil. O site do movimento define a proposta como um desafio físico, mental e espiritual para que o participante “se torne o herói caçador que toda família precisa”.

O movimento já atraiu personalidades como Thiago Nigro (Primo Rico), Pablo Marçal, o evangelista Deive Leonardo, Eliezer, Neymar pai e o empresário Kaká Diniz. Segundo a organização, o Legendários está presente em 24 países e reúne mais de 220 mil participantes.

As críticas do sínodo tocantinense

O documento elaborado pela IPB no Tocantins levanta preocupações em várias frentes:

  • Metodologia de coaching: o movimento recorreria a técnicas de alto impacto emocional que, na avaliação da comissão, acabam relativizando a suficiência das Escrituras e da obra de Jesus Cristo.
  • Identidade paralela: uniformes, identificação dos participantes por números e expressões próprias do grupo poderiam criar uma identidade paralela à vida da igreja.
  • Experiências emocionais: atividades de intenso desgaste físico e emocional poderiam levar participantes a interpretar experiências pessoais como manifestações espirituais.
  • Desvio do Evangelho: o movimento seria um “desvio do Evangelho” por promover uma espiritualidade baseada em desempenho e pertencimento a um grupo, em vez de centralidade nas Escrituras.

O que está em jogo

Caso seja aprovado pelo Supremo Concílio, o posicionamento deverá orientar toda a Igreja Presbiteriana do Brasil e poderá servir de referência para que conselhos locais acompanhem a participação de membros em movimentos considerados incompatíveis com a doutrina da denominação.

A ideia é exercer “vigilância pastoral” e, se necessário, “orientar, em amor, os irmãos que tenham aderido a tais movimentos”. A reunião do Supremo Concílio, que ocorre a cada quatro anos, deve atrair a Manaus mais de 1.600 representantes de 404 presbitérios espalhados pelo país.

A posição do Legendários

O Legendários afirma respeitar as decisões de diferentes denominações cristãs e diz atuar para fortalecer comunidades e famílias. O movimento se define como uma iniciativa que busca a transformação de homens, famílias e comunidades por meio de experiências que despertam a melhor versão do homem e o reconectam com seu verdadeiro propósito e potencial.

A liderança nacional da Igreja Presbiteriana do Brasil não se manifestou antes da decisão do Supremo Concílio. A votação, marcada para o fim de julho, deve definir o posicionamento oficial da denominação sobre o tema.

Com informações Folha de São Paulo e Jornal Opção

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