Enquanto o mundo olha para a África com frequência por suas estatísticas de crescimento do cristianismo, um problema silencioso continua a destruir lares e igrejas no Quênia: a violência doméstica. Segundo estudo de 2024, 45% das mulheres quenianas entre 15 e 49 anos relataram ter sofrido algum tipo de violência física. Entre as mulheres da África Oriental, mais de 40% já foram agredidas por parceiros íntimos — um número superior aos 33% registrados nos Estados Unidos.
O cenário é ainda mais dramático dentro das comunidades religiosas, onde o medo do estigma, a pressão por “perseverança” e interpretações equivocadas da Bíblia mantêm muitas mulheres em silêncio e em ciclos contínuos de abuso.
O culto que parecia um túmulo
Em novembro de 2023, numa manhã de domingo em Embu, no centro do Quênia, o santuário de uma igreja se enchia de vozes femininas em harmonia e tambores rítmicos. Para Mary — cujo nome verdadeiro foi omitido por questões de segurança —, aquele ambiente parecia mais um túmulo.
Seu marido, um recepcionista respeitado na igreja, a agredia verbal e fisicamente há anos. Enquanto liderava orações, aconselhava famílias e pregava sobre “ordem no lar e fidelidade no casamento”, em casa as discussões por dinheiro, comida, roupas ou a maneira como Mary falava terminavam em humilhação ou violência.
Em uma noite especialmente traumática, Mary tentou acalmar o conflito ajoelhando-se para orar. O marido, então, apertou com tanta força o colar com uma cruz que ela usava no pescoço que ela pensou que iria se sufocar. “Você acha mesmo que rezar pelos seus próprios erros vai te levar a algum lugar?”, perguntou ele.
O colar se rompeu. As contas caíram e se espalharam pelo chão. “Aquele som ficou gravado na minha memória”, disse Mary. “Foi como se minha fé tivesse desmoronado junto com elas.”
Raízes culturais e teológicas da violência
A primeira bispa anglicana do Quênia, Emily Onyango, afirma que crenças culturais sobre masculinidade e feminilidade alimentam a violência contra as mulheres — reforçadas por interpretações equivocadas das Escrituras e práticas como casamento forçado e herança para viúvas. Ela identifica os ensinamentos contra o divórcio em quaisquer circunstâncias como fatores que reforçam os ciclos de abuso.
O estigma cultural dificulta a denúncia, especialmente quando os agressores ocupam posições de destaque ou têm forte imagem social. Uma pesquisa revelou que 70% dos quenianos consideram a violência doméstica uma questão privada, e não criminal, e 60% acreditam que mulheres sofrerão críticas, assédio ou vergonha se denunciarem às autoridades.
Mary não denunciou o abuso por medo do estigma dentro de sua comunidade religiosa. “Pensei que talvez Deus quisesse que eu perseverasse. Quando todos esperam que você persevere, você começa a acreditar que o sofrimento é normal”, relatou.
Quando finalmente procurou uma delegacia, a policial questionou se ela tinha certeza da agressão, já que o marido parecia ser uma “pessoa importante”. Mary saiu sem concluir o registro da ocorrência.
O silêncio dentro da igreja
Eva Karimi, fundadora do ministério cristão Mulheres de Amor e Oração (WOLAP) e esposa do bispo John Waweru, teme que os índices de violência doméstica nas igrejas quenianas possam chegar a 70% — tão alto porque muitas mulheres se calam por medo de serem ostracizadas.
Como líder religiosa e esposa de bispo, Karimi conversou com inúmeras mulheres desesperadas que sofrem violência doméstica em segredo. Ela afirma que muitas interpretam sermões sobre perdão e perseverança como uma orientação para suportar o sofrimento: “Elas vivem em silêncio, em parte também por medo do estigma”.
Karimi acrescenta um fator prático: muitas mulheres temem ficar desempregadas após deixarem casamentos violentos. “Se uma mulher não consegue alimentar seus filhos depois de sair de casa, ela voltará [para o agressor].”